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Necrofilmes: Obscuridades da 7º Arte


Comunicado

 

Antes de mais nada, peço desculpas pela minha longa ausência neste espaço, motivada por minhas obrigações pessoais do dia-a-dia, e pelo conteúdo desta nota neste blog dedicado somente à sétima arte.

O fato é que descobri, nestes dias, que um certo indivíduo, utilizando-se lamentavelmente de um específico blogspot, tem me caluniado e difamado na internet, vinculando-me a práticas criminosas que ele julga que certas pessoas estariam praticando.

Em defesa da minha honra, e em respeito àqueles que tem depositado sua confiança em mim e neste blog, tenho a comunicar que estou ultimando as providências legais que o caso requer. Ademais, com a compreensão de vocês, lembro a seguir parte da trajetória do blog Necrofilmes.

Há 10 anos sou colecionador de filmes e memorabilias de cinema, notadamente os denonimados “filmes B”, que estão alijados do grande circuito comercial. Por conta disso, criei e edito, há aproximadamente 6 anos, este blog, dedicado exclusivamente a um gênero cinematográfico que não encontra espaço nas mais diversas mídias, oportunizando que mais pessoas passassem a descobrir um tipo de cinema até então desconhecido do grande público.

Os dados e informações deste espaço, como também o acervo cinematográfico, tem sido objeto não apenas de lazer, como também de pesquisa acadêmica e informações editorais, tanto de revista quanto de livro, além de serem utilizados em festivais de cinema no Brasil.

Na longa relação deste blog com cinéfilos, colecionadores e pesquisadores, no Brasil e no exterior, nunca houve uma única reclamação sobre minha conduta, ao contrário, sempre recebi avaliações e comentários positivos, inclusive cobrando-me maior presença e dedicação de tempo a esta atividade de blogueiro.

Agradecendo a atenção de todos  por esta leitura, comunico-lhes, inclusive de moto e prazer próprios, a retomada, brevemente, da atualização deste blog, que conta com mais de 500.000 visitas.

 

Atenciosamente,

Yúri Koch

 

 

 

 



Escrito por Yúri K. às 15h17
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A Gaiola da Morte (1992)

 

 

O ano era 1992. As coisas não estavam fáceis no Brasil. Uma sucessão de presidentes incompetentes e planos econômicos fracassados, aliado a uma contínua mudança comportamental do povo brasileiro, contribuiu para aniquilar o que restava do insepulto cinema brasileiro. A Boca do Lixo, que foi um terreno fértil de grandes nomes artísticos, estava capengando, indo em direção ao precipício. O reduto de produtoras e distribuidoras de São Paulo, que se sustentou durante anos graças à libido do brasileiro médio, não conseguiu suportar a avalanche do homevideo norte-americano. Estava indo definitivamente à falência.

 

Os ícones que até então encantavam o público estavam quase todos sumidos. Morreram de AIDS, foram para o teatro do sexo explícito, se converteram em religiões cristãs, se mudaram para outros estados ou países, foram tentar a sorte em outros tipos de trabalho, que pudesse “dignificar” o ser humano. E dentro deste contexto caótico, no qual o cinema brasileiro dava seus últimos suspiros, Waldir de Andrade Kopezky, cineasta da farsa explícita nacional, se uniu ao produtor Fauzi Mansur para tentar um dos últimos golpes da insepulto Boca do Lixo.

 

Nascido em 1938, Kopezki estreou na direção em Os Três Boiadeiros, ingênua aventura rural de 1979. E desta época para o explícito foi um só passo. Na fase da farsa erótica tupiniquim trabalhou com os maiores atores e atrizes da Boca do Lixo. De sua câmera flagrou gente de alto calibre como Tatiana Mogambo, Ronaldo Amaral e Márcia Ferro (Minha Égua Favorita, 1987) e Eliana Gabarron e Walter Gabarron (Devassa e Ordinária, 1988). No entanto, Waldir Kopezky ficará conhecido não por seus escassos (e medianos) filmes envolvendo erotismo e pornografia, e sim por ser o diretor do primeiro filme a abordar o chamado full contact do cinema brasileiro. Tal façanha Waldir Kopezky conseguiu com o obscuro A Gaiola da Morte, “o primeiro filme de artes-marciais”, conforme os dizeres do próprio cartaz.  

O tricampeão mundial de kickboxing Paulo Zorello, surfando no sucesso momentâneo que a luta lhe proporcionou, foi agraciado com um importante veículo de publicidade pessoal, a produção cinematográfica. A produtora Alfa Cinema e Vídeo, financiada por um importante nome da Boca do Lixo, Fauzi Mansur, lançou nos cinemas a excêntrica e curiosa obra A Gaiola da Morte, uma grande novidade na época. Afinal, não era todo dia que o público assistia a uma produção genuinamente nacional inteiramente focada em lutas e pancadaria sangrentas, bem ao estilo de Van Damme. 

Como toda uma geração de lutadores de artes marciais, Paulo Zorello iniciou-se em lutas motivado por uma grande lenda, Bruce Lee. Inicialmente treinou Kung Fu, mas logo trocou pela modalidade pela qual ganharia respeito e fama, o kickboxing. Durante toda a década de 90, fulgurou como o maior nome do kickboxing internacional, sendo suas lutas constantemente transmitidas na época pelo canal de televisão Bandeirantes.

 

Até então, o máximo de adrenalina em se tratando de artes marciais no cinema brasileiro era a engraçada e lendária comédia Kung Fu Contra as Bonecas, dirigido por Adriano Stuart em 1976. Stuart, conhecido por seus filmes dos Trapalhões, misturou, de forma leve a agradável, kung fu, karatê e capoeira, para narrar a hilária história de Kung Fu Contra as Bonecas: Chang, um mestiço, filho de chinês com pernambucana, parte para a vingança contra um cangaceiro que dizimou a sua família, sempre em companhia de Maria, exímia lutadora de capoeira. Ou seja, nada para se levar a sério... 

E é exatamente esta a grande curiosidade de A Gaiola da Morte: todo mundo leva a sério o filme! Ao contrário de Kung Fu Contra as Bonecas, na qual todos se deliciam e parecem tirar proveito com engraçada e inusitada história, em A Gaiola da Morte todo o elenco parece estar engajado em emprestar alguma (mínima) credibilidade à obra. Os atores, tanto Paulo Zorello como a equipe secundária, tentam se esforçar ao máximo nos chutes e voadoras, mas tudo descamba para uma grande comédia involuntária. Paulo Zorello é um espetáculo à parte. Com seu visual oitentista, no já tradicional e ultrapassado estilo camp, ostenta um orgulhoso mullet na cabeleira, esvoaçando entre uma voadora e outra, além de exibir um bigodinho frondoso e rigorosamente penteado, certamente influenciado pelo Professor Girafalles ou José Sarney.

 

 

 

A história de A Gaiola da Morte é simples, para não dizer simplória. Lutadores de artes marciais são sequestrados e obrigados a se enfrentar até a morte em um tornei onde só um sobreviverá. A competição mortal ocorre dentro de uma gaiola feita de bambus, escondida em uma fazenda longe da cidade. Os bandidos-sequestradores responsáveis por tamanha barbárie são criminosos que passam o filme todo de terno e gravata, sendo que um deles é personificado pelo conhecido ator-diretor Custódio Gomes, que passa a maior parte do filme calado. Vai ver por tristeza de não mais estrelar produções pornôs. Afinal, os tempos eram outros. O público só queria saber das siliconadas norte-americanas louras, via homevideo, em um espaço condizente com o conforto e a privacidade do lar que os anos 90 começaram a propiciar... Já não mais havia espaço para a fauna urbana que até a década anterior era refletida nas telas do cinema, que saciou até a exaustão a libido das classes urbanas.  

Custódio Gomes comporta-se de uma maneira um pouco nefelibata, um tanto quanto perdido, “nas nuvens”. Queria ele estar vendo uma Eliane Gabarron nua, com seu jeitão suburbana e o corpinho cheirando a sexo, e não um Paulo Zorello exibindo seu corpo em meio a lutas mambembes. O mesmo Custódio Gomes que na golden age da Boca do Lixo dirigiu o clássico Alucinações Sexuais de um Macaco, agora estava ali, parado, sem saber o que fazer ou sem saber o que falar, fazendo parte de uma quadrilha de sequestradores de terno-e-gravata-com-jeito-de-durão. Não era para ele... Afinal, sentiu-se estranho com os novos tempos, meio deslocado de seu habitat natural, a putaria explícita cafajeste made in Boca do Lixo. Custódio Gomes não nasceu para interpretar um mafioso de terno. É de se espantar o desconforto de Custódio Gomes em todas as cenas que aparece no A Gaiola da Morte.

 

 

 

Entre uma luta e outra, de nível de sarjeta, que não surte efeito ao espectador, salta aos olhos a surpreendente cena em que Mestre Maurício desvia de vários tiros de revólver perpetrados por seu malfeitor, utilizando-se da sutil arte da capoeira. Pergunto eu com os meus botões: será que João Tikhomiroff se inspirou nesta cena para fazer o seu recente Besouro? 

Apesar da falta de recursos, a “gaiola” que dá título ao filme, local onde as sangrentas lutas ocorrem, poderia ter sido feita de forma mais profissional, e não um amontoado de bambus que parece ter sido “arrumado” por crianças débil-mentais. A Gaiola da Morte é sim uma produção extremamente precária, porém foi louvável a iniciativa da parceira entre o produtor Fauzi Mansur e o diretor Waldir Kopezky. Eles ousaram. Viram que na década de 90 o filão explícito do cinema fora roubado pelos videotapes norte-americanos, e partiram para uma nova iniciativa, até então inédita no cinema brasileiro, o recém-criado gênero full contact. É verdade que o resultado não foi o esperado. E é verdade também que não fez escola. Provavelmente seja o único filme inteiramente de artes-marciais rodado no Brasil. A falta de carisma de Paulo Zorello e as coreografias amadoras das cenas de lutas viabilizaram o total fracasso da obra. Mas é de tentativas e erros que trilhamos os nossos caminhos.



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 19h14
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Massagem for Men (1983)

Macacada, desculpa mesmo a demora. Agosto foi uma mês apertadíssimo com relação a tempo. Mas em setembro vou atualizar pelo menos uma vez na semana. E confiram a atualização do blog Necrofilmes na seção 1 e seção 2. 

 

 

 

 

Na década de 80, embalada por uma dança sensual, uma cantora loira de cabelo curto fez sucesso entre os meios de comunicação. Seu nome, Sharon. Seu hit musical, Massagem for Men. A história de Sharon confunde-se com o próprio (sub)desenvolvimento artístico e televisivo brasileiro dos anos 80, onde imperava o mau-gosto explícito. Época em que faziam sucesso Mara Maravilha, Sergio Mallandro, Menudo, Fofão, Gretchen e Rita Cadillac. Enfim, não era necessário ter talento para fazer sucesso – se bem que as coisas não mudaram nada todo esse tempo. Desse seleto grupo, o único que se salvava do ponto de vista artístico era o Sergio Mallandro, hoje um renomado e influente intelectual no meio universitário e acadêmico brasileiro. 

 

Ex-dançarina do programa Silvio Santos, e aliciada, quer dizer, e agenciada por Mr. Sam – o mesmo empresário da intelectual Gretchen – Sharon resolveu alçar vôo solo. Afinal, talento não lhe faltava: uma bunda cheirosinha e impecável, um par de “peitchinhos” pequenos e queimados ao Sol, uma cintura fina e esculpida, e louros fios esvoaçando aos ventos. Todas as qualidades para se virar celebridade neste país.  

 

Em 1982, Sharon lançou o hit Massagem for Men, que em sua letra dizia “Vem cá meu bem, fazer uma massagem for men. Benzinho, não fique assim tão nervozinho. Relax, neném, a fera aqui sou eu meu bem”. Ou seja, poesia pura, aliada a uma rigorosa construção harmônica. Algo de fazer inveja a Vinicius de Moraes, que se reviraria no seu túmulo, inconsolável por não ter composto tamanho beleza musical. 

Pronto, a música Massagem for Men virou um sucesso em todo o Brasil, e atingiu índices de popularidade continental, alcançando os 3 países do Cone Sul, Argentina, Uruguai e Paraguai. Fez sucesso também no Chile – acredite quem quiser...

 

No início dos anos 80, mais precisamente em 1983, época em que começaram a surgir os primeiros filmes pornográficos na Boca do Lixo, Sharon resolveu atacar mais uma mídia, dessa vez a cinematográfica, para dar publicidade ao seu sucesso musical, Massagem for Men. Por que não misturar o seu mais novo hit a um filme destinado para o público adulto? 

 

Em um inteligente e mutualístico conúbio (“conúbio”... Aurélio alguém?), cinema e música se uniram, tudo em nome da arte. Não a arte aristocrática da elite brasileira (se é que existe “arte” na elite brasileira). E sim, a arte popular, do povão, aquela que a empregada doméstica, menina faceira do interior, canta enquanto está a lavar o chão recém cagado pelo poodle da patroa. Ou melhor, a música que o patrão canta para e empregada, enquanto a esposa dele deu uma saidinha: “Vem cá, meu bem, fazer uma massagem for men...”. Enfim, a arte que emana da boca do povão, destituída dos conceitos subjetivos burgueses sobre o que é “bom” e o que é “brega”. Quem foi o cobrador de ônibus que nunca cantou o hit de Gretchen, Conga la Conga, enquanto estava separando os trocados para entregar para aquela gorda fedorenta que reclama constantemente da demora do ônibus? Conga la Conga, Conga Conga Conga... Até hoje os cientistas tentam decifrar essa enigmática frase subliminar...

 

Sharon, embasada no seu sucesso Massagem for Men, uniu o talento musical dela ao talento cinematográfico do diretor José Adalto Cardoso. Até então, Adalto Cardoso tinha na bagagem como cineasta apenas 3 obras, entre elas a comédia caipira E a Vaca Foi Pro Brejo. Não sabia, até então, como usar o sexo explícito nos seus filmes. Ousado, já trabalhara com erotismo antes no pesado drama erótico O Império das Taras (1980), em uma trama envolta por mortes, estupros, bordel e lesbianismo. Mas não sabia como mostrar a ralação sexual explícita na tela do cinema.

 

E não foi no Massagem for Men que rolou a difícil química de conciliar pornografia em uma narrativa cinematográfica. Apesar de ter tentando, José Adalto Cardoso não conseguiu exercitar o apogeu do seu talento. Nem de longe demonstrou a genialidade que viria a provar no final da década de 80, com a obra-prima As Taras do Mini-Vampiro, grande contribuição para a cultura brasileira, ou mesmo sua célebre parceria com Sady Baby, que inclusive gerou protestos pelo país e resultou na prisão do polêmico Sady Baby, o "Marquês Sady". 

 

Para amarrar a cantora Sharon e sua música de sucesso Massagem for Men com uma obra cinematográfica, José Adalto Cardoso lançou o filme homônimo. O enredo, por conta de Osmiro Campos, ficou um pouco inusitado, misturando um serial killer, mortes de mulheres, o rebolado erótico de Sharon e suas músicas bagaceiras. Um verdadeiro samba do crioulo doido.

 

Na trama, um renomado doutor, médico respeitado pela sociedade, é portador de uma dupla personalidade, em que tenta esconder de todos o seu lado obscuro e maníaco. Não, não estou falando de Roger Abdelmassih. E sim de Dr. Renato.  

 

Adepto das surubas (no Brasil, sempre tem que ter alguém adepto das surubas), Dr. Renato nutre uma profunda paixão incontrolável pela cantora Sharon. Dr. Renato tem um passado sombrio, envolto por traumas na infância, em que passou a amar e odiar violentamente loiras. Compulsão esta que passou a compartilhar cotidianamente em sua vida. Qualquer mulher loira encaixa-se perfeitamente no rol de suas vítimas, no qual executa detalhadamente seu modus operandi; se aproxima de sua vítima loira, compartilha com ela momentos de felicidade e, no ato sexual, como se fossa a personificação de uma viúva-negra, esgana a sua vítima até a morte. Um ímpeto sexual e homicida que espalha pânico na polícia.

 

 

Apesar da matança de mulheres, Massagem for Men não chega a ser um legítimo exemplar da safra slasher brasileira, como os clássicos Assassino da Noite (1978), de Juan Bajon, e Shock (1984), de Jair Correia. Não tem cenas explícitas de violência (o gore é inexistente) e as mortes das moças mal aparecem. Enquanto as fêmeas loiras são mortas uma por uma, os policiais ficam que nem cego em tiroteio, não sabem para onde vão. E é na delegacia de polícia que surge a maior novidade: o delegado de polícia é nada mais nada menos que Osmiro Campos. Para os desavisados, Osmiro Campos, que fez o argumento e roteiro do pornô Massagem for Men, e que atua como delegado de polícia no filme, foi o dublador do Professor Girafales no programa do Chaves!  

 

Confesso que fiquei emocionado com esta grande descoberta. Quem diria que o grande dublador que emprestou sua bela voz para o Mestre Lingüiça (digo, para o Professor Girafales) trabalhou em uma legítima produção pornô made in Boca do Lixo? Só no Brasil para acontecer essas coisas fantásticas. “Dizia eu que a aritmética...” Quem nunca recitou essa brilhante frase?

 

O que irrita em Massagem for Men é a sua duração, de 86 minutos. Se na edição fossem retiradas cenas prolongadas e desnecessárias, Massagem for Men teria um ritmo mais suave, fluiria com maior dinamismo. Por exemplo, a cada 5 minutos, Dr. Renato se lembra de seu trauma de infância. Uma repetição enfadonha das mesmas cenas, que só faz induzir à insatisfação de quem assiste ao filme. Além do mais, o cineasta José Adalto Cardoso por vezes se perde na narrativa, não sabe para onde vai. A trama se torna confusa, com mulher loira aparecendo aqui e ali e sendo morta, até chegar um momento que não se sabe quem é quem no Massagem for Men. O excesso de personagens secundários só atrapalha o bom andamento do filme.

 

Sharon, dotada de uma sensualidade ímpar, poderia ser melhor aproveitada. Não que aparecesse com mais diálogos. Longe disso! Digo que ela poderia ser melhor filmada, ser mostrada mais a sua erótica e orgulhosa sensualidade loira. O máximo de erotismo são os peitinhos delas que mal aparecem, enquanto está se revirando no edredom da cama.

 

Massagem for Men é apenas um suspiro mambembe da sensualidade trash da Sharon, envolvida em uma trama cabocla de mistério e mortes, que não consegue prender atenção das pessoas. Poderia render melhores críticas, caso fossem cortados 20 minutos em sua edição, e fosse melhor aproveitada Sharon, da forma como ela veio ao mundo. Além do mais, as cenas explícitas não agregam nada ao filme, feitas por um elenco secundário e desconhecido, como se fosse um insert alheio a toda a trama, típico da picaretagem de gente como Carlos Nascimento e Nilton Nascimento. A solução do filme – que deixa um ar de mistério no final – é banal e infantil, em que todos os personagens, tanto a polícia como Sharon e o assassino, se dirigem para o mesmo hotel, local onde ocorrerá o suposto clímax da história.

 

Se antes Sharon, no auge da sua fama, arrastava seu concupiscente público nos seus shows ingênuos, bem estilo “trash’ 80, em que imperava o ditado “quanto pior, melhor”, hoje Sharon é uma figura quase anônima vagando no meio da multidão. Mas, para o encanto dos seus fãs, continua a ostentar a sua beleza loira. A loirinha que virou uma coroa muito gostosa. Com todo o respeito...

 



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 15h03
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Chi! Cometa (1986)

 

 

 

 

O cinema, como qualquer outra arte, sempre buscou em acontecimentos reais uma fonte de inspiração. A década de 50, por exemplo, marcada pela Guerra Fria, com a eclosão da corrida armamentista e aeroespacial, fez surgir centenas de filmes de ficção científica que viam no espaço um perigo iminente. Em 1951, com o clássico The Day the Earth Stood Still, Robert Wise mostrou com suas preciosas lentes um alienígena que aterrissava na Terra para dar um ultimato: ou a humanidade encontrava a paz ou seria extinta.

 

 

E é nos mistérios do cosmo sideral que José Adalto Cardoso se espelhou para dirigir Chi! Cometa, uma legítima porno-comédia made in Boca do Lixo. O ano é 1985, e uma única notícia circulava em todos os meios de comunicação de todo o mundo. Afinal, não era todo o dia que o cometa Halley passava pelo planeta Terra.

 

Nascido no Paraná em 1946, José Adalto Cardoso encontrou em São Paulo o lugar certo para exercer o seu ofício. Trabalhando primeiramente como assistente de direção de lendas do cinema brasileiro, colaborando com Mazzaropi, Fauzi Mansur e Edward Freund, José Adalto Cardoso teve sua primeira grande oportunidade na direção em 1980, onde dirigiu O Império das Taras. E em um período de 7 anos, deixou como legado 14 obras, sendo quase todas elas pornográficas.

 

 

 

A Boca do Lixo sempre teve como principal elemento o sensacionalismo. E não só de nudez, sexo e violência se caracteriza um cinema sensacionalista. A exploração nos filmes sempre manteve uma relação direta com temas pertinentes da época. Por exemplo, nos anos 30 a temática em voga era o uso das drogas. E a velha marijuana era quase uma protagonista nas telas do cinema, para servir de alerta à geração de jovens “sacizeiros”, que gostava de dar umas tapinhas na pantera. Se é que vocês me entendem...

 

Entretanto, apesar da abordagem (e transbordagem) de tabus e temáticas chocantes, não somente assuntos polêmicos são tratados de forma sensacionalista pela sétima arte. Um mero fato científico, como a passagem de um cometa pela Terra, pode inspirar até mesmo um tresloucado cineasta da Rua Triumpho. E José Adalto Cardoso não foge à regra: por que não fazer um filme pornográfico nos rastros de um acontecimento verídico, a passagem do cometa Halley? O resultado, como não poderia deixar de ser, saiu risível. E Chi! Cometa foi parar nos cinemas dos centros urbanos.

 

 

A história é a mais vagabunda possível, superficial e quase inexistente, daquelas feito às pressas. Um homem de meia-idade, malandro nato, vive sua vida entre trambiques e malandragens. Pobre lascado, fica como nome sujo na praça. Além de dever a todo tipo de credor, não paga suas obrigações locatícias como inquilino. A proprietária do quarto vagabundo em que ele se hospeda, Samanta, frustrada com a sua constante inadimplência, dá um ultimato: ou paga, ou cai fora! Uma relação conflitante que remonta a seu Barriga infernizando a vida de seu Madruga – ou “Madruguinha”, conforme dizia docemente a Bruxa do 71... Quero dizer, a dona Clotilde...  

Se no México o papel do bom malandro foi muito bem representado por seu Madruga, em Chi! Cometa temos Chico, um pobre coitado que não tem onde cair morto. Se não tem casa onde morar, pelo menos tem uma namorada bem jeitosinha, Rose - a atriz Priscila Presley - a quem pede ajuda. Rose, uma deusa morena que somente uma mestiçagem brasileira poderia proporcionar, trabalha como empregada doméstica. E é na casa do seu patrão que ela vive. Como os chefes dela estão de viagem, Rose deixa Chico morar por lá, pelo menos durante esse período. 

 

E é justamente nesse período em que os patrões de Rose estão fora que Chico vai aprontar muita confusão – como diria certamente a propaganda da Sessão da Tarde, se tivesse a coragem de transmitir Chi! Cometa...  

 

Se a história é ridícula, sem o menor interesse, Chi! Cometa tem no elenco o ar de sua graça. Jorge Ventura, ator veterano do cinema brasileiro, encarna com competência o malandro Chico. Se o humor está na essência do ator Jorge Ventura, a sensualidade à brasileira encontra o seu par no corpo da mulata Priscila Presley, a doméstica de Chi! Cometa. Todo o talento artístico de Priscila Presley pode ser conferido em um ensaio fotográfico coletado por Betão no blog Pornografista. 

E onde entra o “cometa” do título Chi! Cometa? O título do filme é uma junção das palavras “Chico” e “cometa”, daí o “Chi! Cometa”. Se pensar um pouco, você pode perceber que o título pode ser também lido como “Chico meta” – passei a tarde toda pensando para chegar nesta conclusão. Tal jogo “criativo” de palavras, que só poderia ser feito por um linguista do nível de professor Pasquale, também é encontrado em outro título da Boca do Lixo, “A Mulher que se Disputa”, que, como poucas pessoas sabem, é um trocadilho com “A Mulher que se Diz Puta”... 

 

A passagem do cometa Halley foi inserida em Chi! Cometa da forma mais imbecil e simplória possível – mas, convenhamos, como fazer um pornô que tem como principal elemento de sua narrativa a passagem de um cometa?  

 

Como é da ciência de todos, Chico passa a morar junto com a namorada Rose, na casa dos patrões, enquanto os mesmo estão ausentes. E Chico, querendo lucrar um pouco, faz da casa um puteiro. Calma! Calma! Todos sabemos que o rufianismo é crime. Conforme a “dicção legal consagrada no texto normativo da Lei Penal pátria” (odeio essas frasezinhas cretinas de “adévogado”), em seu art. 230, é crime “tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus lucros”. Quem faz isso pode entrar em cana em até 6 anos. Mas tenha calma! Andar no baixo meretrício e se divertir com as sereias de sarjeta não é crime, apensas se você tirar proveito econômico disso. Portanto, você pode continuar à vontade com suas farras das madrugadas de sábado na Rua Augusta... 

 

E só uma curiosidade histórica (e inútil) sobre puteiros, que em nada vai agregar a sua bagagem cultural: “no fatídico dia 13 de abril de 1946, a desgraçada Lei Marthe Richard fechou os bordéis de toda a França. Uma tradição estava sendo quebrada, uma das mais velhas tradições da França, onde os bordéis foram tolerados pela lei desde um édito do século 13, em que o rei Luís IX (canonizado como São Luís) autorizava o funcionamento das ‘casas de cortesãs’ ” (esse texto retirei da revista adulta Vanity, que encontrei ao acaso, enquanto estava fazendo uma faxina nos fundos de minha casa, parar jogar um monte de porcaria fora). 

 

E Chico, nesse afã de fazer da casa do patrão da namorada um “templo do amor”, tem uma ideia para despistar os olhos da vizinhança. Afinal, como construir um puteiro sem chamar a atenção das pessoas e das autoridades? Chamando o Oscar Niemeyer e Lúcio Costa para fazer o planejamento? Não, a solução é mais simples do que se aparenta. Chico contrata carpinteiros e manda colocar na frente da casa cartazes com os dizeres “Damos aulas sobre cometa Halley”. E quando os estudiosos do assunto adentram na casa para aprender sobre o cometa Halley, descobrem que tudo é armação. O negócio ali dentro é safadeza mesmo! Falando em safadeza, olha o nível da "muiegada"! Só tem chupa-cabra! Vão ser feias assim na casa da desgraça! 

 

 

 

Essa foi a melhor solução que José Adalto Cardoso encontrou para unir o tema do cometa Halley a um filme pornô. O resultado é catastrófico. Chi! Cometa é fraco no enredo e no erotismo, um produto corriqueiro em que apenas a beleza (quase sempre vestida) da musa Priscila Presley sustenta do mais completo fiasco. Se falta um cast feminino interessante, há pelo menos algumas poucas e boas piadas. Em um determinado momento, Chico denomina os estudiosos do cometa Halley de “cometólogos”. Enfim, um humor ingênuo e "songo-mongo" que não encontra mais suporte nos dias de hoje. 

 

 

José Adalto Cardoso teve uma carreira irregular. Se em Chi! Cometa não conseguiu emprestar toda a sua criatividade e talento, um ano mais tarde, em 1987, se desculparia do erro grotesco, deixando ao Brasil um grande tesouro cinematográfico, a arrasadora obra-prima As Taras do Mini-Vampiro, um terrir pornô em que Chumbinho faz um vampiro em busca de sangue e safadeza. José Adalto Cardoso deve ser reconhecido por seus relevantes serviços prestados à nação, graças principalmente à parceria que efetivou ao lado de um gênio autodidata do cinema brasileiro, Sady Baby. Juntos, fizeram aquilo que certamente foi a mais louca e polêmica fase do pornô mundial. Mas isso vovô conta outra hora...  

 

E após terminar esta resenha, gostaria de mandar um abraço a todos os colegas do Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, um evento que foi magnífico e marcante, com filmes de alta qualidade, debates interessantes, encontros internacionais. Enfim, tudo de valioso que um cinéfilo (ou qualquer pessoa normal) pode esperar.



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 02h37
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V Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre

 

Se não bastasse a excelente notícia do Festival de Cinema Fantástico de São Paulo, agora vem outra grande surpresa: o Quinto Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, mais conhecido como Fantaspoa. Um evento que promete ser espetacular, com exibições de mais de uma centena de filmes e curtas, além de debates e atrações internacionais. A grata surpresa é a vinda do diretor neozelandês David Blyth, mais conhecido pelo seu cult sangrento Guerra para a Morte (Death Warmed Up). David Blyth vai mostrar ao Brasil seus dois mais recentes trabalhos, os documentários Amarradas por Prazer, que discorre sobre o submundo do sadomasoquismo  na Nova Zelândia, e Noites Transfiguradas, sobre "os prazeres de fetichistas que fazem performances mascarados via webcam". Ou seja: imperdível! Eu mesmo vou estar lá! Segue aqui o release do Festival:

O V FANTASPOA traz estréias mundiais, novas produções e muitas obras raríssimas na programação

De 3 a 19 de julho, acontece o FANTASPOA — Festival Internacional de Cinema Fantástico, em Porto Alegre. A programação desta quinta edição do festival está muito rica e se caracteriza pela diversidade: clássicos e obras raríssimas ficam à disposição do público, assim como novas produções, algumas inéditas no Brasil e outras em toda a América Latina, além de estréias mundiais. Será exibido um total de 85 longas-metragens e 84 curtas-metragens divididos em diferentes programas temáticos.  

 

Mais informações do V Festival Internacional de Cinema Fantástico vocês encontram no próprio site do Fantaspoa. E galera, vou entrar com uma pequena férias, e no final do mês de julho retorno com ótimas novidades. Portanto, durante este período o blog Necrofilmes não vai ser atualizado, e não poderei despachar filmes. 

 

Enquanto isso vocês podem assistir aos vídeos que o blog Necrofilmes começou a disponibilizar na internet, mais precisamente no conhecido Youtube. Como a política do site de vídeos Youtube não deixa (e como eu também não quero baixar o nível), não vou disponibilizar vídeos de nudez, sexo explícito nem violência real. Para executar tal tarefa de disponibilização de vídeos na internet, comecei um rigoroso processo de seleção de 5.000 VHS da minha coleção, fora filmes que estão em outras matrizes, para escolher as melhores, mais divertidas e mais geniais cenas já feitas. Então, a partir deste momento, toda a magia triunfal da Boca do Lixo e do cinema (inter)nacional ressuscitará. Vocês vão pode ver cenas de Sandra Midori, Morelli, Afonso Brazza, Chumbinho, Tony Vieira e tantos outros que povoaram o inconsciente coletivo do povo brasileiro. 

Os primeiros vídeos disponibilizados no Youtube, como não poderiam deixar de ser, são do polêmico diretor Sady Baby. Com o clássico Ônibus da Suruba, Sady encantou o Brasil e o mundo. A abertura de Ônibus da Suruba é uma das mais memoráveis do cinema brasileiro. A trilha sonora cult, o elenco cósmico, com as presenças surpreendentes de X-Tayla, Feijoada, Ratão e o próprio Sady Baby, os diálogos preciosos, o enredo inusitado e a direção certeira de Sady Baby contribuíram parar tornar este pornô uma verdadeira obra-prima, amada por milhares e milhares de brasileiros (eu entre eles).   

 

Uma das cenas mais famosas de toda a história da Boca do Lixo é o truncado diálogo travado entre os integrantes do Ônibus da Suruba e o seu comandante-maior, Sady Baby. Em um determinado momento, irritado com a lerdeza de seus prepostos, Sady Baby larga a célebre frase “Aqui é o colégio da fudeção!”. Com isso, Sady Baby profetizava, com os dizeres "aqui é o colégio da fudeção", que o Brasil é uma grande "fudeção", uma verdadeira putaria. Sady, já no início dos anos 90, antevia todas as falcatruas que seriam perpetradas por Sarney, Agaciel Maia e sua quadrilha. Uma verdadeira safadeza. Além do mais, é comum encontrar no cinema de Sady Baby fortes críticas sociais, como citações a políticos corruptos, ladrões de todas as espécies, advogados pilantras, racismo e degradação do ser humano no seu meio social, que o corrompe cada vez mais. Por isto, é correto afirmar que o cinema de Sady Baby é um cinema político, assim como foi Vittorio De Sica para o neorealismo italiano.

 

Também disponibilizei no Youtube uma cena do raríssimo filme de Sady Baby, Soltando a Franga, de 1988. O vídeo mostra um diálogo escroto e surreal travado entre duas mulheres, X-Tayla e uma paraibana. Aliás, essas são algumas das principais características do cinema primitivo de Sady Baby: o desenvolvimento de personagens que causam uma certa repugnância ao espectador (devido a nossa forte tradição católica) e construções arrasadoras de diálogos oníricos, recheado com frases célebres e de baixo calão.Só vendo para crer. 

 

 

 

Isso e tudo o mais vocês conferem no blog Necrofilmes e no Youtube. Encontro com vocês no final de julho...



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 22h31
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Banho de Língua (1985)

 

Vindo de uma cidade no meio do nada, na desconhecida Dores do Indaiá, em Minas Gerais, e se deslocando para São Paulo em busca de um sonho, Mauri de Queiróz encontrou no cinema um mundo onde pôde realizar todas as suas fantasias.

 

Sendo um ex-artista de circo e profundo conhecedor das emoções do povão humilde, Tony Vieira, pseudônimo de Mauri de Queiróz, investido na função de produtor, diretor e ator-galã de filmes de baixo orçamento (low budget film), construiu, para si e para o cinema do Brasil, um mundo repleto de seres fantasiosos, de tramas mirabolantes, entrecortadas por ações de quadrilhas malvadas. E, como mocinho, Tony Vieira teve a oportunidade rara de poder salvar moças lindas e de corpos esculpidos das garras dos perigosos bandidos.

 

Entre tiros e explosões, dirigiu automóveis para perseguir sádicos vilões, onde fazia, vez ou outra, a galeria do mal cair da ribanceira. Mauri de Queiróz, enfim, construiu, com muita dedicação e batalha, a lendária figura do herói sul-americano. Uma versão brasileira – e melhorada – do afeminado James Bond britânico. James Bond nunca sua o terno ou amassa a gravata borboleta. Dirige Aston Martin, recebe grana do Serviço Secreto e finge que come as mulheres só para não ficar com fama de bichinha. Tony Vieira não. Foi um verdadeiro cabra-macho. Roupa amassada e suja, suando feito burro, não tinha bons modos na mesa e era rude mesmo com tudo e com todos. Bebida, só mesmo a boa e velha cachaça. Comida? Nada de restaurante chique, só o feijãozinho básico mesmo e a farofa. Ele não tinha vergonha de ser um legítimo farofeiro! Quando pintava a bandidagem, resolvia as coisas ao seu modo, detonando vagabundos. Afinal, com relação aos bandidos, o capeta manda, Tony Vieira devolve. Dado a sua virulência e impiedosa energia que dispensou a todos os variados tipos de nefastos marginais, Tony Vieira foi um verdadeiro Charles Bronson. Daqueles que não se fazem mais hoje em dia.

 

Se nos anos 70 Mauri de Queiróz, com o pseudônimo de Tony Vieira, levava todo um universo fantasioso às multidões que lotavam os cinemas, repleto de seres grandiosos e histórias envolventes, a partir da década seguinte seus filmes passaram a fazer fronteira com a mais pura realidade. O herói que outrora ostentava uma pistola para salvar a mocinha em perigo, passaria a ser substituído por um sequestrador drogado adepto da suruba sem camisinha, e a bela virgem que nos tempos passados era salva no final da história, passaria a se transformar em uma coroa estuprada por uma gangue de marginais. A adesão de Tony Vieira à era pornográfica pôs um fim a toda uma magia que pairava nos seus filmes de ação; talvez um reflexo de seu sentimento de mágoa e frustração para com todas as transformações econômicas, culturais e degradações que a Boca do Lixo estava atravessando – transformações estas como a invasão de filmes explícitos estrangeiros, e sucessivas crises econômicas, que em poucos anos contribuiriam para sepultar definitivamente a lendária Boca do Lixo.

 

O cinema pornográfico de Tony Vieira é, acima de tudo, um cinema seco, áspero, árduo, que não comporta espaço para sonhos e fantasias. Piadas e situações cômicas, nem pensar. Caso Roberta Findlay, diretora do controverso e apelativo “filme” Snuff, ficasse responsável pela divulgação de toda a obra explícita de Tony Vieira, certamente ostentaria nos cartazes a crua declaração “The film that could only be made in Brazil, where life is cheap”.

 

A partir de Meninas de Programa, o primeiro filme da fase hardcore de Tony Vieira, o cinema do diretor mineiro – radicado na paulistana Boca do Lixo – perdeu a conceituação maniqueísta de vilões, mocinhos e vítimas. Não mais existiria o Bem e o Mal. Apenas o ser humano, criatura nefasta e sem os menores resquícios de civilização. A única lei que rege a todos e a tudo não é a álea preconizada milênios antes pelos filósofos gregos, e sim o caos, um mundo rude, onde as pessoas vegetam esperando o fim da vida. Impera aquilo que Paolo Cavara e Franco Prosperi definiram como Mondo Cane, um mundo cão, repleto de assassinatos, cultos satânicos, sacrifício de pessoas, estupros, sequestros e mortes. Homo homini lupus (“o homem é o lobo do homem”, para usar uma expressão em latim). Ingredientes indigestos encontrados em quase uma dezena de filmes adultos filmados por Tony Vieira entre 1984 e 1988. O cinema explícito da Boca do Lixo encontrou nos filmes de Tony Vieira o que foi convencionado nos Estados Unidos como roughie movie.

 

 

E é neste contesto agradável e limpinho que Banho de Língua se insere. Se em Meninas de Programa Tony Vieira contou a história de moças ingênuas que entraram no caminho da prostituição, em Banho de Língua narra a história de jovens vindas do interior que, não encontrando oportunidades na cidade grande, acabam sendo molestadas por homens que fingem querer empregá-las como domésticas. 

 

Rose (a atriz Ayda Guimarães) é uma moça sozinha na cidade grande, reduto de lobos sem dignidade que exploram uns aos outros. Desapossada do apartamento onde vivia, por inadimplemento das obrigações locatícias, acha-se no meio da rua. Sem casa e sem trabalho, pensa que encontrou uma oportunidade de emprego em um apartamento. Porém, descobre atônita que terá que satisfazer sexualmente seu futuro patrão. O que não concorda, porquanto ainda não foi corrompida pelo “modo de vida barato” dos grandes centros urbanos. Tony Vieira faz, desta forma, uma interessante contraposição entre dois diferentes tipos de mundo. Um é o interior, caracterizado pela dignidade da pessoa humana, habitado por pessoas ingênuas e de boa índole, e o outro é a metrópole, lugar que destrói a todos, onde os homens só pensam em molestar as mulheres, seviciá-las. Um local onde não se pode confiar no próximo.

 

 

Desamparada e sem perspectiva de futuro, Rose, por ironia do destino, acaba encontrando em uma pracinha uma dupla de duas jovens, que está na mesma situação difícil dela. Conversa vem, conversa vai, e uma das meninas joga a tolha: “É, eu acho que o jeito é abrir as pernas mesmo...”

 

 

Corta-se então para uma outra cena, em uma região um pouco distante. Três rapazes, filhinhos-de-papai, abusando de suas condições econômicas, abandonam uma mulher no meio do mato. O resultado final de mais um estupro. Mal sabe Rose, na flor da sua inocência mais pueril, que o destino lhe reserva tal desprazer.

 

Por crueza da vida, na sua incansável jornada de peregrinação em busca de um emprego, Rose acaba indo parar na casa do líder da gangue de estupradores de classe-média alta. Bebendo refrigerante que lhe fora oferecido, ministrado com drogas e soníferos, ela acaba por dormir. Desta forma, poderá ser abusada sem que possa oferecer o menor esboço de reação. Algo do tipo sleep assault...

 

 

O estupro (ou, como dizem os nossos vestibulandos, “o estrupo”), ato sexual que caracteriza-se pela violenta conjunção carnal imposta à mulher, mediante cópula vagínica forçada, é um ato de redenção. A partir de tal crime, Rose joga a toalha, e entra definitivamente no ringue da vida. Uma vez abusada sexualmente, rende-se ao mundo cão que reina na cidade grande. Passa a ser prostituir. E com isso, protagonizará mil e uma histórias cabulosas, entre cenas heterossexuais e transexuais, chegando até mesmo a colar velcro com outras dondocas. Se é que vocês me entendem... No cinema de Tony Vieira, a prostituição é, não um ato unilateral de vontade, e sim um determinismo socioeconômico da vida.

 

E são nessas experiências sexuais de prostituta vividas por Rose que Tony Vieira transmite aos olhos do espectador todos os mais variados tipos de aberrações sexuais. Não há, no cinema de Tony Vieira, uma fronteira entre o sexo convencional e o sexo normal, entre a legalidade e a proibição. Impera o vale-tudo, a vontade de sentir o prazer naquele exato momento, não importando os meios. Importa apenas o fim. Em uma das cenas, um homem enfia um espanador de pó no próprio furiquis – para dizer uma palavra na língua do Mussum.

 

Entre um dia de labuta e outra, Rose prepara seu encontro com o grupo de grãos-finos que outrora lhe abusou sexualmente. Os responsáveis pela degradação mundana a que fora submetida. Até que este dia chega. Disfarçada com óculos, vai á localidade onde os mesmos se encontram. Porém, o que era para ser um desfecho chocante e violento de uma legítima trama de rape and vengeance (estupro e vingança), torna-se um ato de submissão aos anseios depravados dos criminosos. Se vingar para que? Ela quer mais é curtir. E nisto, cai nos braços (ou , melhor dizendo, caiu nos Bráulios) novamente da quadrilha de bandidos riquinhos.

 

O ponto alto de Banho de Língua – e de toda a fase explícita de Tony Vieira – é o double penetration protagonizado por Ayda Guimarães, uma cena competentemente executada e muito bem filmada por Tony Vieira. Aliás, este tipo de “fornicação” – extremamente comum no cinema norte-americano nos anos 80 – era raríssimo na Boca do Lixo. Mais uma ousadia do Tony Vieira, um visionário na arte da pornografia e na inovação do sexo.

 

 

Banho de Língua é uma legítima obra de uma fase rude e sem esperanças de Tony Vieira. Um homem que, certamente, nasceu para alegrar o povo com seus filmes de aventura e ação. Como diretor de filmes para adultos, Tony Vieira era melhor que o James Bond.

 

 


 



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 15h47
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Venha Brincar Comigo (1986)

 

  

É muito comum, entre os pesquisadores da Boca do Lixo, a propagação de certas informações a respeito daquele reduto mágico da arte de fazer cinema. Entre umas leituras e outras, percebe-se a existência de uma certa lista, que encabeça o rol de diretores que foram obrigados a aderir, devido a fatores culturais e econômicos, à ascensão da pornografia explícita. O narcisista David Cardoso, por exemplo, utilizando-se do pseudônimo Roberto Fedegoso, dirigiu, em 1985, Viciado em C... Alfredo Sternheim, sem usar pretensos nomes artísticos, adentrou na era do explícito com Sexo em Grupo. Outro importante nome obrigado a “militar” na recente e promissora área da safadeza explícita tupiniquim foi Cláudio Cunha, competente diretor de sucessos de crítica com o drama O Gosto de Pecado (1980), que chegou a mostrar a putaria com o elogiável Oh! Rebuceteio. Além de nomes como Antonio Meliande e Juan Bajon, que não viram saída a não ser surfar na onda do pornô.

 

Contudo, um lendário nome da gloriosa Boca do Lixo fica embutido no esquecimento da memória nacional, quando se trata de diretores que saíram dos filmes ditos "normais" para o filão X-rated. Desprezam, quase todos, a figura mitológica do mineiro Mauri de Queiróz, o eterno Tony Vieira. Talvez pelo fato da nossa “crítica cinematográfica” brasileira considerar Tony Vieira um subdiretor, incapaz de conviver no panteão dos diretores nacionais. Uma mera abstração inútil, inculto, produtor e diretor de filmes de qualidade “duvidosa”, um ser indigno de constar na memória do cinema brasileiro.

 

Não é, pois, esse o entendimento do blog Necrofilmes e de sites como a Zingu, que relembra e respeita a memória deste que provavelmente foi o diretor que melhor soube levar o cinema de diversão às grandes massas. A partir de 1972, quando dirigiu o western Gringo, o Último Matador, o Brasil passaria a conhecer e conviver cotidianamente o cinema de massas de Tony Vieira. Um cinema sem grandes complexidades ou desenvolvimento técnico, é verdade. Com filmes dotados de orçamentos quase inexistes, e fazendo verdadeiros malabares na arte da direção – ele veio de um circo – Tony Vieira conseguiu conjugar um cinema que enfatizava não a "arte" em si – no seu conceito aristocrático, de difícil compreensão às multidões –, e sim levar alegria e entretenimento a um povo tão sofrido como é o brasileiro.

 

Em um período de 15 anos, Tony Vieira foi o responsável pela direção, produção e (quase sempre) atuação de aproximadamente 30 filmes. Um efeito grandioso, que mostrava sua fidelidade e obstinação à Sétima Arte. Corajoso e ousado, Tony Vieira destilava cargas de adrenalina em todos os gêneros possíveis, dirigindo e atuando em faroestes, policiais, suspenses, aventuras e dramas. A crítica nativa – como é comum em toda a sua história – no afã de jogar pedras a quem vem do povo (que não tem a predestinação divina de vir de família de banqueiros) o considerava um diretor horrível. Mas em certo momento, em uma análise ao filme Os Violentadores (1978), ela foi obrigada a confessar: “Pode ser que Os Violentadores não passe de uma imitação, mas podem crer, é um filme feito com sangue, suor e lágrimas de brasileiros”. Tony Vieira é a materialização mais fiel do que se pode chamar de cinema popular. A revista Cinema em Close Up – importante e extraordinário veículo de publicidade da Boca do Lixo, certa feita se referiu a Tony Vieira como aquele que “se especializou na realização de filmes nos quais a correria e o sopapo dão a idéia de uma nacionalíssima violência”.

 

Dotado de um senso empresarial incomum, Tony Vieira, nos anos 70, fundou a MQ Produções Cinematográficas. Como consta em uma matéria da época, a MQ “começou do nada, apenas tinha a inteligência do seu titular. Hoje possui equipamento próprio, três câmeras, travellings e moviola” (Cinema em Close Up nº 13)

 

E a partir de 1984, com Meninas de Programa, Tony Vieira inundou os cinemas com obras pornográficas, como Neurose Sexual, Venha Brincar Comigo, Eu Adora essa Cobra, entre outras que incorporaram, algumas com fidelidade, o jeitinho brasileiro de dirigir safadeza, recheado de cenas transgressoras, que ainda não eram muito comuns na época. Tony Vieira foi um dos pioneiros na arte de transgredir, de inovar o pornô com cenas bizarras e inusitadas, recheado de parafilias, homossexualidade e estupros, além de sexo interracial.

 

 

Em 1986, em plena invasão pornográfica norte-america no Brasil, que exibia nos cinemas as devassas atuações de estrelas do nível de Ginger Lynn e Traci Lords (apesar desta ser “di menó” na época), Tony Vieira e sua MQ Produções rodaram Venha Brincar Comigo, aproveitando, de forma explorativa, uma notícia que deu no que falar, na época: uma inglesa que se apaixonou pelo seu sequestrador; uma materialização factual daquilo que a psicologia chama de Síndrome de Estocolmo.

 

   

 

No filme em comento, a filha de um milionário (Fabiana Rios) é raptada por sequestradores adeptos da suruba e hedonismo, composto por três homens e uma mulher (Lia Soul, que anos mais tarde escandalizaria o Brasil e os Estados Unidos com Mulheres Taradas por Animais). Levada a uma distante casa de campo, a sequestrada nutrirá um paixão incontrolável por um dos seus seqüestradores (o ator Van Oliver), aquele encarregado de “cuidar” dela, enquanto os outros meliantes vão aos bacanais da vida – as cenas de orgias, nas quais impera o vale-tudo, foram filmadas na lendária Boate Biblo’s, de São Paulo, muito explorado pelos filmes da Boca do Lixo, assim como o Motel Bariloche.

 

 

 

A trilha musical, retirada do LP de Lilian Gonçalves, é um das mais irritantes possíveis, bem camp, ultrapassado e irritante. Um filme pornô, pela sua essência, se sustenta por um elenco que dê respaldo às multidões. Lamentavelmente não acontece com Venha Brincar Comigo. A atriz principal, Fiabana Rios, na época foi descrita como uma “nova musa do sexo explícito”. Mas verdade seja dita, Fabiana Rios não tem carisma nenhum. Nas cenas de sexo, parece mais um robô, sem expressões, sem saber ter desenvoltura com o corpo e inerte nas ações sexuais. Não é à toa que sua passagem foi meteórica na Boca do Lixo, contracenando em só mais um filme, também do Tony Vieira, em o desconhecido Garotas da Boca Quente.

 

Entretanto, no meio de um elenco sem apelo popular, eis que surge na linha do horizonte ele, o mais querido e charmoso ator brasileiro de todos os tempos, o saudoso e lendário anão Chumbinho. Como uma ave Fênix, Chumbinho ressurge das trevas para dar ao filme Venha Brincar Comigo apenas uma única cena realmente divertida e digna. Guiando seu cavalo na praia, Chumbinho, em um momento de distração, deixa seu animal amarrado em uma árvore. Acontece que no mesmo momento os sequestradores estavam lascando a lambisgóia nas areias da praia (se é que vocês me entendem). E um pacato senhor, ao ver atônito a cena de suruba ao ar livre, quer logo saciar seu prazer hedonista (“saciar seu prazer hedonista” leia-se bater punheta para gozar). Mas eis que o senhor de idade tem uma ideia melhor (Hã? “Melhor”?). O cidadão percebe que o cavalo de Chumbinho está ali, no meio do mato, dando sopa. Então: Créu!

 

Tenham calma! Tony Vieira não era Sady Baby nem Rubens Prado. Aqui, o bestialismo é apenas implícito. Mas imagina você, leitor. Você tem um cavalo que usa como meio de transporte. Em um momento de descuido, deixa o cavalo sozinho, amarrando o mesmo a um tronco de árvore. Quando se dá conta, tem um estranho “montado” (no mau sentido) no seu cavalo! Eu ia fazer o mesmo que o Chumbinho, jogar pedra no safado. Chumbinho não titubeia, pega várias pedras e joga no bizarro ser zoofílico. Até que o descarado sai correndo, fugindo das pedradas certeiras de Chumbinho. Essa é o único momento de criatividade de todo o filme.

 

 

 

Para azar dos puritanos, Venha Brincar Comigo é entrecortado por cenas bizarras. Na Boate Biblo’s, um dos sequestradores toca piano. Só que ao invés de usar os dedos, ele usa o Bráulio – se é que vocês me entendem. Sem contar nas excêntricas cenas de homoerotismo (ou, melhor dizendo, “viadagem” mesmo!) protagonizados por Agnaldo Costa, que chega a enfiar uma garrafa no próprio fiofó!

 

O elenco feminino de Venha Brincar Comigo é sem graça, não tem o tchan de uma Sandrinha Midori da vida, muito menos a ingenuidade sensual de uma Sandra Morelli, nem a desenvoltura e dinamismo de uma Eliane Gabarron. E Fabiana Rios, como dito anteriormente, é um robô frio e sem graça, que não consegue emprestar sensualidade a nenhuma cena. Ela é broxante! Deve-se deixar registrado aqui nos anais desta casa a última frase que Fabiana Rios recita para os espectadores, ao se deparar com seu sequestrador-amante, uma frase surpreendente: "Amor de pica é amor que fica". Uma declaração que certamente Gilmar Mendes e sua gangue qualificaria como algo "lítero-poético-recreativo".

 

O ponto fraco de Venha Brincar Comigo é a aparição veloz (e mal filmada) do astro Chumbinho – dublado com uma voz das mais grotescas, e por isso mesmo engraçadíssimo. Chumbinho, dotado de um talento sexual ímpar e comediante nato, astro do stand up comedy no pornô (ele, sozinho em cena, fazia cenas e trejeitos hilariantes, roubando todo o brilhantismo e diversão de qualquer filme) poderia ter sido melhor usado por Tony Vieira. Ao invés da sua aparição vapt-vupt.

 

As falhas do filme são evidentes. A criatividade sempre foi um elemento intrínseco à carreira de Tony Vieira. Porém, Venha Brincar Comigo é uma obra menor do mestre, sem o espírito debochado, marginal e alegre que tanto a Boca do Lixo proporcionou às classes populares – apesar de algumas cenas transgressoras. E a memória de Tony Vieira, para o nosso azar, quedou-se inerte no ostracismo do tempo.

 



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 20h31
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Como Afogar o Ganso (1984)

 

 

A pornografia à brasileira, muito antes desta fase “pós-cretina” que vem atravessando (onde predominam diretores sem genialidade e “atrizes” sem brilho), esteve sempre muito atrelada ao humor escrachado e farsesco enraizado no povo brasileiro. Quais seriam, então, as raízes deste humor debochado do Brasil? – perguntaria certamente o historiador Sergio Buarque de Holanda. A depender da resposta curta e grossa da Boca do Lixo, todo o comportamento do brasileiro teria como pano de fundo a sua picaretagem, o chamado “jeitinho brasileiro”. Afinal, nas lentes do cinema nacional – "cinema nacional" entendido aqui como a “representação popular nos cinemas”, ou seja, na Boca do Lixo – o Brasil é o país do trambique, onde abundam pilantras, descarados, vadios e irreverentes. Uma imagem, até certa forma, estereotipada, e que por isso mesmo elevou a níveis estratosféricos um humor insano e demente nunca antes visto.

 

Caipiras, negros, padres, advogados, virgens, galinhas (pessoas), galinhas (animais), balofas, portugueses, gays ou a quem quer que seja. Todos eram vitimas potenciais do humor ácido dos realizadores da famigerada Boca do Lixo. Ninguém escapava de suas escrotices. Nem mesmo um indefeso e dócil anão. A histeria cômica brasileira era diretamente convertida em película, materializando no cinema uma veia cômica sem interferências de limites, proibições ou moralismos. Piadas até certo ponto dantescas, que não encontram mais espaço no presente, dominado pelo cobertor cínico do politicamente correto.

 

Se o humor irreverente era um dos elementos mais intrínsecos à produção pornográfica brasileira – e, por isto mesmo, diferenciando-a de outros países e dando uma legitimidade nacional – pode-se afirmar, sem medo de errar, que o filme Como Afogar o Ganso é um dos mais representativos do clássico ciclo pornô da Boca do Lixo. Ciclo este que durou aproximadamente uma década, se iniciando 1981 com Coisas Eróticas, do italiano Rafaelle Rossi e, perdurando até o início da década de 90, com as derradeiras produções do veterano Carlos Nascimento e as obras terminais de Sady Baby.

 

 

Na obra Como Afogar o Ganso, o diretor Conrado Sanchez exibe, de forma quase documental, o dia-a-dia de Rodolfinho, um anti-herói bem brasileiro. Rodolfinho é certamente aquela pessoa que não foi parida, e sim cagada por alguma mulher: é feio, pobre e (pasmem!) virgem! Pois é, “ripa-na-chulipa” é uma expressão que não consta no vocabulário do nosso pobre herói. Pussy, só mesmo em sonhos, onde nosso Rodolfinho não pensa duas vezes: abre o zíper da calça, pensa naquela vizinha gostosa na flor da idade trajando roupas minúsculas e aí... Aí acho que você já sabe, né? Ou vocês são ingênuos e eu tenho que ficar escrevendo aqui detalhe por detalhe? Rodolfinho é o guardião daquele seleto grupo que pode ser chamado de “os Bronha-boys”.

 

 

 

Rodolfinho é a típica representação humana daquilo que o cientista social Howard Becker chamaria de outsider. Rodolfinho, lenhado que só ele, vive (ou vegeta) em um cortiço imundo, tendo que dividir a inóspita moradia com vizinhos rabugentos. Fazendo bicos aqui e acolá, Rodolfinho está nas margens das estruturas do poder. E para piorar a situação, namora, de forma tímida, uma mocinha insegura, que só vai liberar a “entrada” após o casamento – se é que vocês me entendem... Nota-se aqui um traço interessante do jeito de ser brasileiro. Afinal, na opinião de muitos, mulher que se preze tem que se “preservar” das tentações carnais. O hímen não é somente uma película presente na entrada da vagina, mas também um símbolo de como se opera a sociedade machista e patriarcal, que vê na virgindade da mulher uma proteção à futura família exemplar. A família entendida como a célula máter da sociedade monogâmica, conservadora e... Hã? Deixemos minhas análises sociológicas chinfrins de lado e voltemos ao Como Afogar o Ganso!

 

 

Conrado Sanchez, diretor paulistano de Como Afogar o Ganso – e que estreou na direção a convite do lendário produtor Antonio Pólo Galante com o clássico A Menina e o Estuprador – acertou em cheio ao narrar, com certa distância emocional, a história de Rodolfinho. Não há um tema central na história, uma diretriz a ser seguida. Apenas momentos corriqueiros de um menino pobre de São Paulo, e sua tentativa desesperada em perder, a qualquer custo, a virgindade.

 

Conrado Sanchez conduz o filme como se nós, espectadores, observássemos a vida de Rodolfinho pelo buraco de uma porta, tornando-nos cúmplices do destino amargo que espreita o cotidiano do pobre menino – sem que nós possamos fazer absolutamente nada, apensa ver e observar, torcendo para que o Rodolfinho agarre pelo menos alguma moçoila. Mas, para que isto ocorra, o morador do cortiço tem que fazer alguma coisa! Sei lá, tomar alguma atitude! Macho que é macho persegue sua fêmea! Porém Rodolfinho, quando tem a chance de ficar com uma mulher nuazinha dentro do quarto, vacila! Vacila e feio! Rodolfinho sempre nega fogo a uma dondoca. Sei não, acho que Rodolfinho gosta mesmo é de uma linguiça!

 

 

 

A atuação brilhante de Paulo Cesar, encarnando com maestria o personagem Rodolfinho, é um dos pontos mais marcantes de Como Afogar o Ganso. E mais do que isso, Paulo Cesar criou, com seus trejeitos, um dos personagens mais marcantes da história da Boca do Lixo. Um feito grandioso, visto que foram poucos os atores que conseguiram dar uma áurea de imortalidade aos seus personagens, transformando-os em verdadeiras lendas do cinema nacional. Os outros célebres atores que conseguiram tal façanha foram Chumbinho, interpretando com sobriedade o anão Siri no Fuk Fuk à Brasileira, e Rubens Prado, que imortalizou de forma competente os anti-heróis índio Kamoa e Gregório, o Lenhador, nos clássicos do splatter tupiniqum Experiências Sexuais de um Cavalo e Sexo Erótico na Ilha do Gavião, respectivamente.

 

 

Quem rouba também a cena é o ator John Doo. Dotado de um carisma ímpar, o chinês John Doo – conhecido pelo grande público como diretor talentoso, autor de episódios singulares de filmes como A Noite das Taras e Aqui, Tarados! – personifica o chefe raivoso de Rodolfinho, dono de uma loja que tem a nobre função de lavar roupa suja alheia.

 

 

Percorrer os olhos em Como Afogar o Ganso é uma aula nostálgica não somente de como se fazer um filme leve, engraçado e divertido, como também uma sóbria e interessante análise da diferença de épocas e de costumes dentro do próprio Brasil. De ver como este país mudou para pior. Marcar a diferença entre os anos 80 e os já escaldados dias atuais. Hodiernamente inexiste história, lógica e diversão, apenas uma pornografia asquerosa, adepta do “pró-punheteirismo”, onde as cenas desconexas são enfeitadas por donzelas plastificadas da classe-média, as manjadas sereias de sarjeta, que não estudaram e por isso mesmo ganham a vida entre um blowjob e um buttfucked. Um verdadeiro contraponto à Boca do Lixo, que contava, geralmente nos seus breves 70 minutos de projeção, histórias comuns de um povo pobre, e que por isto mesmo, eram cenas sinceras e gloriosas, flagrando todo um inusitado costume sexual do povo brasileiro que nunca mais será visto nas telas. “Nunca antes na história do Brasil um cinema foi tão sincero e criativo”... Diria certamente o... Quem diria mesmo essa frase? E para comprovar minha tese de que o Brasil mudou para pior, o último trabalho de Conrado Sanchez no cinema foi Cinderela Baiana, em 1998, que conta com a Carla Perez e Alexandre Pires no elenco (argh!)

  

 

E galera, agora gostaria de escrever aqui neste espaço duas observações.  O primeiro é agradecer ao colega Alisson Andrello por ter me entregue seu elogiado e lendário zine Apocaliptical Mass Murder. Em 20 páginas, Alisson traça um respeitável estudo sobre os temas serial killer e mass murder, fornecendo informações interessantes e valiosas para pessoas que, assim como eu, estuda o assunto há muitos anos.

 

 

A segunda informação que gostaria de dizer é informar que o acervo Necrofilmes foi atualizado com mais de 70 obras raras do cinema. E atendendo a pedido (que não são poucos) o blog Necrofilmes está fazendo uma grande promoção. Levando 5 ou mais filmes, o preço cai para R$ 12,00 cada DVD. Tenho dito!

 



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 00h34
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Sexo em Festa (1986)

 

  

“Com seu sotaque da Mooca, Sandra Morelli torna ridículo qualquer texto”.

 

“O diretor Sternheim já foi mais sério, mas também se sentiu obrigado a aderir ao explícito”.

 

Na tradição da mitologia grega, certamente um dos 12 trabalhos de Hércules deveria ser a procura e o encontro de uma crítica positiva a qualquer elemento integrante da Boca do Lixo, uma análise digna e respeitosa a qualquer filme, ator, atriz ou diretor que habitaram as imediações da Rua Triumpho. Críticas quase sempre injustas que, devido a uma análise rasteira e preconceituosa dos jornalistas, não conseguiam desvendar toda uma áurea por trás de um dos pólos produtores de cinema mais incríveis e verdadeiros do mundo.

 

Se histórias ditas como “banais” abundavam a toda hora na Boca do Lixo, Sexo em Festa não escapa desta taxação. Filmado em 1986, Sexo em Festa narra as aventuras de Lucia, um moça rica e problemática que, acompanhada de seu noivo Hélio e outras pessoas, se encontram e se desencontram sexualmente em uma casa qualquer no interior de São Paulo.

 

 

No rol das estrelas nativas, formadoras de um legítimo star system, encontra-se Sandra Morelli. Na obra Sexo em Festa Sandra Morelli é Lucia, uma menina mimada e riquinha, cheia de problemas sexuais. Ostentora de um mullet um tanto quanto camp, com seus finos cabelos dourados formando uma penca capilar cobrindo o pescoço – traço de beleza enraizado nos idos anos 80 – e dotada de uma voz doce, suave e insossa, Sandra Morelli, descendente de italianos, foi a mais importante e sem sombra de dúvidas a mais bonita estrela da Galápagos Produções. Nas cenas iniciais de Sexo em Festa, Lucia se encontra com o seu noivo Hélio, encarnado pelo ator Elias Breda. Conversa vem, conversa vai e descobre-se que, mesmo com anos de namoro, os dois nunca nhanharam, para o desgosto de Hélio.

 

 

 

E após o rápido encontro na pracinha, o casal vai a Bariloche. Não a paradisíaca cidade da Argentina, rodeada por montanhas e lagos cristalinos, mas sim ao Motel Bariloche, o lendário local onde ocorriam as maiores fodas da Boca do Lixo – ou, para dizer um linguajar mais elegante e menos vulgar, o local onde ocorriam os maiores encontros romântico-intimistas da Boca do Lixo.

 

E fuk-fuk ali, vuco-vuco aqui, peru com farofa lá, Lucia, fresca que só ela, desiste de prosseguir com o oba-oba, para mais um outro desgosto do seu noivo Hélio. A atriz Sandra Morelli, além de sua beleza exótica, se destacou na Boca do Lixo por fazer papéis de mulheres traumatizadas e excêntricas, de difícil compreensão por parte de seus relacionados; sempre personificando mulheres perturbadas, às vezes mimadas e ricas, com passado obscuro e traumático que põe em cheque a sua vida sentimental, desaguando em relacionamentos amorosos difíceis. 

 

Como as coisas na cidade grande não andam bem, o casal parte rumo à roça. O campo, na Galápagos, é um local onde o ser humano encontra-se consigo próprio. A cidade grande é um elemento aglutinador de brigas e problemas sentimentais, e o campo é o contraponto, um lugar onde os homens e as mulheres se descobrem sexualmente e sentimentalmente, uma espécie de cura após a vida urbana traumática. Lá, os dois jovens, em um ato de voyeurismo, vão se deparar com um casal descarado bimbando no meio do matagal – o chamado dogging, em que casais, adeptos do exibicionismo, praticam suas “sem-vergonhices” em locais públicos. “Mas que barbaridade!”, certamente diria o Datena se visse a cena...

 

 

 

No Sexo em Festa, a beleza não ficou somente a cargo da veterana Sandra Morelli. A gostosa morena jambo Ninon Jones (apesar do nome de homem) dá o ar de sua bunda, quer dizer, o ar de sua graça em mais um produto made in Galápagos.  

 

Ninon Jones sempre aparecia como coadjuvante na Boca do Lixo, figurando escondida no meio de um grande bacanal, despercebida aos olhos leigos dos espectadores que lotavam os cinemas, à época. Uma pena, pois Ninon Jones teve todas as qualidades para ser uma das principais estrelas de cinema, só não teve a merecida oportunidade. Aliás, um dos pontos negativos de Sexo em Festa é a negligência de Alfredo Sterheim em filmar Ninon Jones! Um absurdo! A beldade deveria ter logrado um papel mais relevante na história, e Sterheim gasto mais cenas mostrando a beleza cafuza de Ninon Jones, focando com sua câmera a exótica (e aparente) miscigenação de índio com negro, que resultou em uma morenona de olhinhos puxados e cabelo preto e liso, esvoaçando aos ventos. Em vez disso, Ninon Jones aparece só de realce, em cenas geralmente na penumbra, mal iluminadas e fora de foco.

 

   

 

No mesmo ano, em 1986, Ninon Jones integraria o que provavelmente foi o mais polêmico filme do Mestre Sady Baby, o maior diretor de filmes hardcores do planeta, no controverso Caiu de Boca. Malfadado a uma estranha maldição, o filme Caiu de Boca, considerado por muitos como “perdido”, mostra, entre suas cenas, a morena jambo Ninon Jones fazendo o papel de uma modelo fotográfico que alicia a sua prima (a ninfeta Taramoa). Mas essa história é que nem merda: não mexe que não fede...

 

 

 

E na casa de campo, brigas vão rolar – e outras coisas vão rolar também, se é que vocês me entendem... E eis que um diálogo brilhante surge no meio da muvuca. Ninon Jones, após escutar o passado bizarro de Lucia, no qual fica sabendo que a moçoila rica teve encontros lésbicos com a tia quando mais jovem, exclama a seguinte frase:

 

– Sabe que uma história como essa daria um bom filme?

 

E uma inimiga de Lucia, que encontrava-se também na casa de campo, não perde a chance para futucar e jogar lenha na fogueira:

 

– Mas tem que ser explícito, porque a madame aí dá mais que chuchu na cerca...

 

Obviamente Lucia não vai deixar por menos, e dá um safanão na gaiata. Afinal, não há nada pior que ser agredida verbalmente na própria casa. Entristecida, sai da sala cabisbaixa. Dando espaço para que mais um baco-baco ocorresse em sua propriedade. Melancólia dentro do quarto, é consolada por seu caseiro, o ator Max Din, que oferece mais que consolo à patroa... Um dos pontos altos de Sexo em Festa é justamente o encontro privado entre Lucia e seu empregado doméstico, que nutre uma paixão avassaladora pela ama.

 

 

Enfim. Sexo em Festa é mais um produto simples da Boca do Lixo, que, com pouco orçamento, um elenco simpático, e um roteiro sem grandes aspirações, tratou com sinceridade temas corriqueiros, muito comuns no povo brasileiro, como a degradação que somos obrigados a nos submeter na pós-modernidade. Inferior ao Sexo Doido (rodado quase que simultaneamente ao mesmo), Sexo em Festa é mais uma obra que o honra o panteão explícito tupiniquim. 

 

Terminado a resenha de Sexo em Festa, gostaria de dar 3 informações aqui no blog. O primeiro, é agradecer ao meu amigo Matheus Trunk, da Zingu, que me conferiu a honrar de ser um dos ganhadores do prêmio Dardos, destinados aos blogs que se destacam na internet.

 

E gostaria imensamente de agradecer ao amigo norte-americano Shawn Johns, lá do árido estado do Arizona, nos Estados Unidos (my special thanks to my friend Shawn Johns). Shawn me deu de presente 5 edições do lendário fanzine que ele editou nos EUA, o cultuado Vomit Bag Vídeo, especializado em cinema extremo, underground, bloody japanese flick, exploitation, filipino movies, mondo documentaries e outras insanidades!

 

 

 

   

 

Um verdadeiro deleite! Já li todas as matérias e estou relendo novamente, pois são muitas informações a respeito deste estranho “galho” de cinema, pouquíssimo conhecido pelas grandes massas. Como forma de agradecimento, vou enviar ao Shawn Johns algumas edições da minha coleção particular de revistas Rudolph, a “revista do sexo insólito”, que foi a mais impressionante publicação destinada ao público adulto no Hemisfério Sul, hoje em dia muito rara, difícil de encontrar.

 

E a terceira informação é dizer que o blog Necrofilmes adicionou mais obras raras em seu acervo, que pode ser conferido na Seção 1 e Seção 2.

 



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 13h54
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Sexo Doido (1986)

 

Em todo e qualquer período da história, uma das características mais intrínsecas à produção pornográfica é a submissão do gênero feminino aos anseios depravados do homem. A mulher vista como mero objeto de satisfação sexual do macho, uma figura descartável após o ato sexual. A acessoriedade da mulher é observada desde os primórdios das filmagens de sexo explícito. Os chamados stag films, produções amadoras e clandestinas, filmadas no início do século XX, já mostravam a subserviência e secundariedade feminina nas relações sexuais. A própria finalidade dos stag films, geralmente exibidos em bordéis da França e países europeus, objetivava despertar o interesse do público masculino pelas mulheres “da casa”. Em Free Ride, de 1915, duas moças, perambulando em uma estrada deserta, são agraciadas com uma carona de um desconhecido. Desde que preenchida uma certa condição: Hello girls, want a ride? I’m going your way, and I’ll be nice... If you promise to be good... Conforme dizem os diálogos escritos, que interrompem as ações dos três protagonistas.

 

Diferentemente da tendência que predominava no mundo até então, muitos filmes da produtora brasileira Galápagos, do chinês Juan Bajon, caracterizava-se por uma “inversão” de papéis. Uma espécie de esboço do que viria a ser o chamado femdom, dominação e supremacia feminina em relação ao homem – hoje em dia muito ligado ao cenário sadomasoquista. A mulher, detentora do poder, manda, desmanda e dá punições físicas no sexo masculino. O femdom, enquadrado hoje como subgênero sadomasoquista, conquistou recentemente ares de pseudo-snuff movie com a grotesca série japonesa Yapoo Market, em que homens são brutalmente espancados por mulheres vestidas de couro, as dominatrix.

 

Em Sexo a Cavalo, da produtora Galápagos, Sandra Morelli trata seu parceiro Ronaldo Amaral como se cavalo fosse. E em Sexo Doido, novamente temos uma outra insanidade da Sandra Morelli. Desta vez, amarrando com cordas o seu o parceiro, como um slave, escravo.

 

A lendária Galápagos tinha como carro-chefe o diretor Juan Bajon, e as ações pornográficas ficavam a cargo do casal Ronaldo Amaral e Sandra Morelli, quase sempre em porno-aventuras no meio do sítio, presenciando as farras sexuais de cavalos tarados. Quando não estava dirigindo, Juan Bajon designava seu fiel ajudante Alfredo Sternheim pata tal ofício. E em 1986, aproveitando quase o mesmo elenco e cenário, Alfredo dirigiu dois filmes em um pequeno espaço de tempo, Sexo Doido e Sexo em Festa, fazendo pequenas alterações no roteiro.

 

Em Sexo Doido, Jô – Sandra Morelli – é uma mulher insatisfeita com a vida sexual. Seus dias de tédio perduram até o dia em que assiste a uma produção pornográfica dentro do cinema, onde acaba manifestando uma estranha paixão pelo ator do filme, Gino Copolla – o ator Fernando Sábato. Decidida a se encontrar com ele, procura-o por todos os cantos, acabando por se lembrar que tem uma amiga ex-atriz pornô, que provavelmente poderá saber o paradeiro do enigmático Gino Copolla. Então pega o telefone e liga para a sua velha conhecida, a musa Márcia Ferro. Só que Jô ligou numa hora errada. Márcia Ferro, ocupada, não pode falar direito, porque está com a boca cheia... Se é que vocês me entendem...

 

 

  

Até que o dia mais esperado por Jô chega. Ela acaba se encontrando com o seu amor platônico, em uma boate de striptease. Conversa vem, conversa vai e Jô, oferecendo dinheiro ao Gino, convida-o a passar uma temporada no sítio dela, para uma possível série de entrevista sobre como é ser ator pornô e como é a vida dos que se aventuram neste gênero de cinema.

 

 

 

A Galápagos tinha uma fórmula certa para fazer sucesso nos cinemas e obter lucros: histórias comuns, quase banais, sem muitos atrativos, e um par de atores centrais que dessem conta do recado. Quase tudo muito apressado, feito na correria, uma vez que o processo de produção na chamada época de ouro da fase “ripa-na-chulipa” tupiniquim, determinava filmes mais simples possíveis, rodados em menos de 4 dias, para logo serem exibidos nos cinemões. E era de suma importância a presença no elenco de um casal já conhecido, de forte apelo comercial na época. Como por exemplo, as duplas Ronaldo Amaral e Sandra Morelli, Walter Gabarron e Eliane Gabarron, Sandra Midori e Wagner Maciel.

 

Dotada de um certo grau de esquizofrenia, Jô oferecendo muito álcool a Gino, faz com que o mesmo desmaie. Logo em seguida, executa o seu excêntrico plano: amarra o pobre coitado em uma cama, forçando-o a uma série de transas, dia e noite. Uma compulsão no estilo bondage, em que a vítima acaba gostando, até certo ponto, da “brincadeira”. Mas por que a necessidade de amarrar o ator na cama? Aí Freud explica: Porque Jô é uma mulher cansada dos machismos e da total submissão feminina à figura do homem fálico. A mulher quer ditar as regras quando o assunto é “ragatanga”.

 

 

 

Mas que feminismo chato da porra é esse! – exclama certamente algum leitor. No entanto, é interessante mostrar a ótica do diretor Alfredo Sternheim em tentar desvendar o funcionamento de certas mentes femininas, as “feministas”. Mas tudo deságua em um certo machismo, já que no final de Sexo Doido é explicado que Jô é esquizofrênica. Inconscientemente ou não, Alfredo Sternheim quis dizer que qualquer tentativa, por parte da mulher, de se desgarrar do papel secundário e descartável que ocupa no relacionamento sexual, é fruto de uma esquizofrenia, uma loucura, uma patologia grave. Ou é isso ou eu viajei legal no ácido lisérgico.

 

Há quem reclame das incansáveis presenças de música clássica, tocando a toda hora, com ou sem cenas de volúpia. Realmente, é um pouco insuportável essa característica, que chega a irritar em certos momentos. Ela não para de tocar. Como qualquer tipo de música ou efeitos sonoros, o diretor tem que saber inseri-la no momento adequado. Não é o caso dos filmes da Galápagos. A música clássica, se tocada em determinadas produções pornôs, e da maneira adequada, pode dar um ar de insanidade e grandiosidade, aumentando e sensibilizando, de maneira extrema, os sentidos do espectador. Como é o caso da rara série de compilações BDSM filmadas nos anos 70, chamada Symphony of Rape, que faz uma bizarra contraposição entra a música erudita e as cenas de violência extrema.

 

Há também aqueles que reclamam da trivialidade dos filmes da Galápagos. As histórias, dizem os críticos fervorosos, são banais, caem no lugar comum. Mas isso é um ponto negativo? O sexo e a história, principalmente os da Boca do Lixo, são uma materialização fiel de todo o (in)consciente coletivo do povo brasileiro: suas taras, medos, frustrações e desejos mais oprimidos e repreendidos. Sady Baby que o diga...

 

Então, por que falar de epopéias e roteiros suntuosos, mirabolantes, quando nos anos 80 o que se via nos cinemas era o próprio reflexo da população brasileira, o povão pobre e semi-analfabeto, marginalizado das estruturas do poder? Na década de 80, o que se via era a representação popular nos cinemas, e não as putinhas plastificadas oriundas da classe-média, que encontraram nas produtoras Private/Brasileirinhas/Buttman uma saída para suas vidas sem significados. Aliás, estas três esplêndidas produtoras inundaram e emporcalharam as locadoras em meados dos anos 90, com produções voltadas para moleques espinhentos, adeptos do onanismo desenfreado. E acabou por enterrar de vez aquilo que já foi a mais brilhante expressão artística de um povo sem esperanças: a querida e saudosa Boca do Lixo.

 

A Boca do Lixo, como verídico cinema de classes populares, deveria (e fez) falar sobre temas que estavam pairando no próprio espírito do brasileiro, da classe menos favorecida: o corno, a prima do interior, a esposa mal-comida, o anão descarado, a mulher maluca, enfim. Temas capazes de fazer ressoar no público, única razão da existência de todo e qualquer filme. Afinal, o que é um filme senão um singelo prolongamento da vida?



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 16h53
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O Assassino da Noite (1978)

 

Em fevereiro de 1926, Rocco, um engraxate de 9 anos, estava terminando os seus serviços diários. O local, imediações da praça da Concórdia, no Brás. Após um dia de labuta, percorrendo as ruas fétidas e alagadas pela chuva, é atacado por um negro alto e de nariz pontiagudo. Fingindo-se de morto, e aproveitando a ausência do seu violentador devido à movimentação de carros, consegue escapar com vida. Meses depois, José Augusto do Amaral, o negro violentador de crianças, seria preso. A derradeira história do primeiro assassino em série do Brasil, conhecido como Preto do Amaral.

 

O tema serial killer sempre provoca calorosos debates pela opinião pública, que não teima em proferir sentença de morte ao primeiro caso que envolva carrasco em série. O tempo em que urge o ódio e a vontade de vingança é o tempo necessário para apaziguar os ânimos. Ao tardar de algumas semanas, aquele maldito violentador em série, massacrado pela opinião pública, é esquecido por todos.

 

Quando se ouve falar sobre serial killer, vem a mente nomes consagrados, como Ted Bundy, Richard Ramirez e Charles Manson. Três nomes de fama internacional, conhecido por todos por seus atos de crueldade e perversão. Porém, se o assunto é o psicopata nativo, oriundo da terra do Carnaval e do samba (e da mulher pelada), o que surge é um grande ponto de interrogação. Quem são os malditos?

 

É dentro deste terreno fértil e traiçoeiro, onde abundam casos grotescos envolvendo mulheres violentadas e estripadas, que o mestre Juan Bajon faz o seu debut no cinema, com o filme O Assassino da Noite. Uma estréia brilhante, que já mostrava todo o talento do diretor em construir, com um enredo simples e aparentemente pobre, uma história envolvente, recheado de personagens enigmáticos e compulsivos.

 

 

Inesperadamente, ao clarear da manhã, começam a surgir corpos de mulheres abandonados no meio das ruas, mutiladas e com aparentes indícios de violação sexual. Exames aprofundados revelam que o maníaco mutilava e estripava as suas vítimas, um ritual que caracteriza o seu modus operandi. Moças belas e jovens, que por uma crueza do destino, tem os seus corpos perfeitos transformados em carne putrefata.

 

 

Certamente, além da firme direção de Juan Bajon, a interpretação de Ewerton de Castro, encarnando o assassino em série, contribuiu para que O Assassino da Noite seja um dos melhores suspenses já feitos no Brasil. Ewerton de Castro externiza o arquétipo ideal dos sociopatas. Sem maneirismos ou clichês, mantém uma distância emocional e frieza necessários à apreensão de qualquer espectador. Seu olhar penetrante é tão duro como um golpe de navalha cortando os mamilos das suas vítimas.

 

 

Em meio a tantas mortes e a crescente fome da opinião pública por justiça (ou vingança), e devido à incompetência da chamada “polícia investigativa”, Pascoal, um inocente trabalhador de um matadouro – o ator Carlos Koppa (erroneamente descrito no IMDB como Ewerton de Castro) – é preso e massacrado por todos. Apenas um pequeno indício de que era amante de uma das vítimas do sociopata (a atriz Aldine Müller, em uma presença apagada) foi o suficiente para ser metido atrás das grades.

 

 

Ao contrário de hoje, em que uma produção com o tema serial killer enfoca a profusão de sangue e o gore, de forma canhestra e imatura, esquecendo (e deixando de lado) todos os outros elementos que contribuem para a boa apreciação de uma obra cinematográfica, como o desenvolvimento dos personagens e diálogos consistentes, O Assassino da Noite fazia o inverso. Em certos momentos, a câmera é esquivada para fora do elevador, quando o psicopata está prestes e atacar mais uma fêmea. O que se vê são movimentações bruscas dos pés dos personagens, indicando que mais uma carnificina ocorreu. Momentos sugestivos e criativos como este não tem mais espaço dentro da mente dos nossos célebres diretores de filmes extremos, que ajudam a jogar na lata de lixo tudo aquilo de grandioso que a Boca do Lixo ajudou a construir...

 

   

 

Ewerton de Castro, um ator com ótima presença artística, hoje em dia atua nas escalafobéticas novelas da Record. O papel do corcunda Belchior, em Escrava Isaura, foi um constrangedor presente de grego a um artista que soube honrar a filmografia brasileira.  

 

Merecidamente, O Assassino da Noite agradou à crítica da época. Um feito e tanto, dado à arrogância e elitismo prosaico dos soberbos críticos do Brasil. Um detalhe importante é a alfinetada sutil e quase imperceptível de O Assassino da Noite. No final, após a autoria dos crimes ter sido descoberto, Pascoal, sua esposa e sua filha (Ana Paula Bajon, provavelmente a filha de Juan Bajon), são agora alçados à categoria de “família brasileira exemplar”, chegando a dar entrevista até mesmo a programas sensacionalistas da TV, os mesmos que antes acusaram e condenaram o inocente.

 

 

A mídia nativa, guardiã da moralidade e do comportamento retilíneo, preocupada mais com os lucros vorazes dos seus comerciais, é a primeira a atirar com badogue. Ao ver que a pedra arrebentou a própria janela (maculando a vida de inocentes), se redime e exalta o chamado cidadão comum. Cidadão este, que, devido a um "erro judiciário" (e não da própria mídia irresponsável com seus ataques), sai da condição de assassino a herói da sociedade. Tema atual, né?

 

 

E não se esqueça! O acervo do blog Necrofilmes adquiriu dezenas e dezenas de produções obscuras. Confira na Seção 1 e na Seção 2.

 



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 16h03
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Sexo com Chantilly (1985)

 

 

Entre as muitas mulheres que desfilaram pelas centenas de produções pornográficas da Boca do Lixo, as de beleza estonteante, capaz de cair o queixo de qualquer marmanjo, podem ser contadas nos dedos das mãos (ou nos dedos dos pés, se as mãos estiverem ocupadas). Conhecida por ser o mais democrático pólo de produção de cinema que o mundo já conheceu, a Rua Triumpho e suas imediações – berço da Boca do Lixo – testemunhou entre as suas calçadas, escondidas entre bares e produtoras, mulheres dos mais diversos estratos da sociedade, desde princesa européia – como a Ira de Fürstenberg, que chegou a estrelar aventuras eróticas do diretor David Cardoso – até a mais mequetrefe balofona empregada doméstica (nada contra as domésticas, apenas exemplificando a diversidade humana existente naquele período).

 

Quando o assunto é hot-scenes, poucas se destacaram, uma vez que a maioria das estrelas de até então, que encantou o povão na fase softcore, se recusou a participar da algazarra sexual que os anos oitenta iriam trazer. Desta forma, apesar das centenas de figurantes que abundavam nas telas dos cinemas dos centros urbanos, poucas foram as musas do cinema explícito. As beldades que levavam multidões aos cinemas e que tinham seus nomes estampados em letras garrafais nos cartazes, foram poucas. As mais lembradas são a Sandra Midori, Sandra Morelli, a argentina Andrea Pucci, Márcia Ferro, Patrícia Petri... Mas sem sombra de dúvidas, nenhuma se compara à grandiosidade, talento, presença artística e sensualidade da eterna Keity Vidigal.

 

 

Moça maior de idade, com seu rosto angelical e pela alva e reluzente, Keity Vidigal esbanja luxúria em qualquer aparição. Um misto de santidade e depravação, ambigüidade barroca que caracteriza sua voracidade nas cenas de tchaca-tchaca-na-butchaca. Mais parecida com uma personagem recém-saída das páginas de Vladimir Nabokov, Keity Vidigal marcaria, para sempre, a história do gênero no Brasil, impondo um padrão de qualidade estética até então não visto nas produções cinematográficas.

 

 

Ao contrário das siliconadas e deformadas atrizes que teimam em aparecer no gênero nos dias atuais, Keity Vidigal, lá na década de oitenta, ostentou, com muito orgulho e dignidade, o seu corpo soft, de aparência um pouco teen, desprendido de cirurgias plásticas. E tanto charme para, infelizmente, protagonizar apenas um único filme na Boca do Lixo: Sexo com Chantilly. Fato lamentável, uma vez que foi a mais bela atriz que já passou por estas bandas. Poderia ser equiparada a qualquer Brigitte Lahaie da vida, não fossem duas sinistras condições: sua passagem meteórica, e o local de nascimento: Brasil, país dos esquecidos e do ostracismo cadavérico. Fico imaginando: fosse hoje, a Keity Vidigal iria ser obrigada a “contracenar” com a Lacraia, anões e “celebridades” decadentes. Entraria em depressão, acabando por encontrar abrigo na cocaína. Para pagar o vício, faria programas em sites de “acompanhantes” de São Paulo. Onde contrairia AIDS e, com isso, cometeria suicídio. Acha que é exagero meu? Infelizmente é a mais pura verdade, um retrato fiel de como funciona hoje a sociedade.

 

Voltemos ao Sexo com Chantilly. A ninfeta Keity Vidigal é tão arrasadora que a história fica em segundo plano.

 

 

 

Se a história é irrelevante, o cast é magnífico. Afinal, uma coisa é certa. Juan Bajon sempre acertou na escolha do seu elenco. Em Sexo com Chantilly não é diferente. Keity atua ao lado das veteranas Sheila Santos, Bianchini Della Costa, Ronaldo Amaral (ator-fetiche de Bajon) e Eliseu Faria. Lamentavelmente, o soberbo Dicionário de Diretores da Boca do Lixo, do autor Alfredo Sternheim, cometeu um erro crasso. Em um foto em preto e branco do Sexo com Chantilly, chamou a bela morena Sheila Santos de Bianchini Della Costa. Confundiu alhos com bugalhos... Deixa pra lá!

 

 

A história de Sexo com Chantilly é marcada pela simplicidade, na qual um grupo de pessoas vai a uma casa de campo se empanturrar de comida, e, nos intermédios, pôr em prática a libido humana.

 

 

Logo no início, Bajon, mostrando habilidade e dinamismo com sua câmera, faz um travelling pelo local onde irá ocorrer a festança regada a comida e muita cópula: uma casa de campo. Em seguida, somos obrigados a escutar Ronaldo Amaral cantar uma canção (algo pior que uma música do grupo Molejo). Terminado a seresta de Ronaldo com seu violão, Keity Vidigal vai tocar flauta. Se é que vocês me entendem...  

 

 

Ao longo de Sexo com Chantilly, assistimos as farras sexuais entre os participantes, que não conversam absolutamente nada durante todo o filme. Os homens, entendidos aqui como gênero masculino e feminino, em nenhum momento se comunicam, dialogam entre si. Não emitem opiniões ou paixões. Apenas emitem grunhidos. Quando falam, são apenas em pensamentos, em cenas introspectivas. Com isto, Juan Bajon quer despir tudo de desnecessário do ser humano, deixá-lo nu, de corpo, alma e pensamento. Afinal o homem é, acima de tudo, um animal. E como todo animal, é dotado de instintos básicos, que se colidem com a moral e com a razão: o prazer irracional de copular. A cópula do animal-humano é uma válvula de escape para a degradação cotidiana que o homem é obrigado a se submeter.

 

É por isso, entre outras coisas, que eu considero o diretor Juan Bajon um verdadeiro gênio, daqueles que não se fazem mais hoje em dia. Mas poucas pessoas conseguem notar as nuances e momentos grandiosos de um grande diretor...

 



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 01h58
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Bacanal de Colegiais (1983)

 

Disse certa vez Alfred Kinsey, pesquisador da sexualidade dos norte-americanos, que a melhor maneira de se estudar um povo é analisar o seu comportamento sexual. Desta forma, certos países estariam ligados a determinados condutas de sexo, algumas delas consideradas cientificamente como parafilias, anormalidades. No Japão, por exemplo, país reconhecidamente conservador e misógino, predominaria o bondage. Na Alemanha, sobressaía o sadomasoquismo e a gerontofilia. Já a França se destacaria com os fetichismos ligados ao catolicismo, com freiras e conventos. A Europa Oriental, de uma forma geral, seria marcada pela pedofilia e efebofilia. E no Brasil, pasmem, predominaria a zoofilia.

 

Ao se analisar a história pornô brasileira, desde o seu início como produto de consumo legalizado a partir da década de 80 – passado os 30 anos da morte do célebre estudioso – até os dias atuais, percebe-se que a assertiva de Kinsey é, de certa forma, bizarra e estereotipada, não condizente com a realidade. Porém, é certo dizer que em determinada época a indústria pornô brasileira inundou as prateleiras das locadoras com obras de bestialismo, dirigidas por mentes insanas. Juan Bajon – mais contido e insinuado – inaugurou o gênero (que chegou a fazer sucesso nas locadoras dos EUA), e o famigerado Billy Norton desenvolveria explicitamente a grosseria, já na década seguinte, através da grotesca produtora Indecente Filmes.

 

Importante nome na produção de obras da Boca do Lixo, tendo no currículo 33 filmes, Juan Bajon marcou época. Chinês radicado no Brasil, tem a sua filmografia dividida em duas fases: os de 1979 a 1984, quando focou o tema de juventude em conflito com a sociedade retrógrada e preconceituosa, e os que seguem a partir de 1985, período dos eqüinos. E é no primeiro período que Bacanal de Colegiais se enquadra.

 

 

Em um inspirado momento de maturidade, onde abandona estereótipos e análises supérfluas da sociedade, Juan Bajon perfila os bastidores da indústria pornográfica. Revela a vida de Marcelo – interpretado serenamente por Tony Cassab – um jovem perdido, sem perspectivas de vida. Acordando sempre tarde e sem emprego, é duramente criticado pelo pai, e mimado pela mãe. As brigas árduas de gerações são constantemente inseridas nas obras de Juan Bajon, mostrando a frieza e rispidez com que a figura paterna, detentor da "Pater Familias", trata os seus comandados, filhos e esposas. Após discussões constantes, Marcelo arranja serviços em um motel, onde deverá se prostituir. E logo se decepcionará, uma vez que será forçado a se encontrar com figuras homoeróticas sebosas.

 

 

Como macho que é macho não se entrega, larga essa vida de michê. Fazendo bicos em produções caseiras de sexo, encontra emprego com um diretor que está dirigindo um filme de título curioso: Bacanal de Colegiais. Revela-se, aqui, um interessante e criativo exercício metalingüístico de Juan Bajon. E é durante as gravações do filme que Marcelo se encontra com Silvia (a atriz Rosa Maria Pestana) que será a sua parceira fora das telas, onde passarão, juntos, pelas amarguras impostas pela vida.

 

 

Em um gênero dominado por mulheres comuns, sem muitos atrativos, Rosa Maria Pestana é um colírio para os olhos de qualquer pessoa. Com um bunda para lá de sensacional, uma pele “bronzeada” (como diria o Silvio Berlusconi) e uma postura profissional diante das câmeras, é impossível não tirar os olhos da morena. Atriz que quer ser reconhecida não somente pela beleza, como também pelo talento (vide a bunda, quer dizer, a interpretação dela), Rosa Maria Pestana não participa de cenas explícitas. O que é até melhor, uma vez que deixa asas à imaginação dos espectadores.

 

 

Como todos sabem, não é lenda o chamado “teste de sofá”, onde aspirantes à atriz – e até mesmo atores – são obrigados a transar com chefões das indústrias. E a tal prova de assédio sexual é muito bem mostrada pelas lentes atentas do cineasta Juan Bajon. Rosa Maria Pestana tem que se “deitar” com o diretor, para que consiga trabalhar no Bacanal de Colegiais. Será uma autocrítica de Juan Bajon? A interpretação fica a cargo do espectador.

 

Observador da complexidade da vida, Bajon registra, por meio das frustrações passadas pelo casal principal, composto de forma competente por Tony Cassab e Rosa Maria Pestana, como as opções de se prostituir e adentrar no submundo pornográfico dependem exclusivamente das escolhas de cada um. Afastando, assim, a falsa premissa da velha frase “faço programa porque não tenho emprego e sou marginalizado”. Bacanal de Colegiais não é surrado nem grosseiramente dirigido. Ao contrário, é um ponto alto na carreira de Juan Bajon, composta de ótimos filmes, e outros medonhos. Porém, quando Bajon acertava, era mais uma obra magnífica e bem desenvolvida na filmografia explícita brasileira.

 

 

 

Confira a atualização do Blog Necrofilmes com mais de 80 filmes raros na seção 1 e seção 2!

 

 



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 02h07
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177 capas para baixar!

 

 

Povo brasileiro, mais um aviso importante. Clicando na figura acima, você vai baixar 177 capas de filmes brasileiros raros, obscuros e não-convencionais, todos em alta resolução e com a melhor qualidade possível. Esta coletânea foi concretizada graças à parceria entre o blog Necrofilmes e o colecionador e pesquisador do cinema nacional, Alexandre Aldo.

Com um simples clique, você terá em seu computador quase duas centenas de capas do cinema nacional, entre elas muita pornochanchada, dramas eróticos, policiais, experimentais, trash, horror obscuro, e até mesmo faroeste! Ou seja, uma coletânea de capas do melhor que o Brasil já produziu. Gostaria de agradecer imensamente a Alexandre Aldo, por toda a sua dedicação para que isto acontecesse, e ao Martorelli, que novamente criou a figura de mais outra coletânea do blog. E certamente fizemos isso para que todos possam ter e conhecer um pouco do que foi e do que é o cinema nacional. Resgatar a cultura brasileira, assim como as iniciativas louváveis da Zingu, Pornochancheiro, Pornografista, entre outros. E sobre esta coletânea: como foram muitas capas, dividimos em 4 arquivos diferentes, mas todos em um mesmo link.

E só de pensar que certa feita uma criatura desprezível se referiu a nós, indiretamente, com a expressão "colecionadores-mercantilistas". Mercantilistas por quê? Por que gastamos muito, muito tempo e dinheiro para ter e divulgar essa brilhante arte que é o cinema? Por que viramos madrugada adentro para conseguir contatos, gastamos grana em viagens no Brasil e no exterior, para ter filmes, livros e revistas e depois divulgá-las para centenas e milhares de pessoas? Por que reviramos de cabo-a-rabo centenas (centenas mesmo!) de sebos, lojas, locadoras, desde grandes metrópoles como São Paulo e Porto Alegre a vilarejos escondidos no interior de Sergipe?

Se isso é ser mercantilista, então me orgulho em ser um mercantilista. E não vou continuar falando porque este meu papo está coisa de velho ranzinza. E uma coisa que não sou é ranzinza. Ao contrário. Em todos esses tempos, descobrimos várias pessoas maravilhosas, incríveis, que viraram grande amigos. E é com esse ritmo de aventura e amizade que seguimos adiante com o blog. 

Vou entrar de férias, galera. E só volto no início de fevereiro. Até lá, estarão indisponíveis os serviços de gravação e remessa de filmes e materiais colecionáveis. Mas voltamos na primeira quinzena de fevereiro. Afinal, temos muito - muito mesmo - o que falar em 2009. Vamos explorar esses fantástico universo que é o cinema, nos aventurando nas pornochanchadas, no horror tupiniquim, e tudo de mais brilhante que o Brasil e o mundo já criou. Mas é claro que vamos dar enfoque especial a grandes ícones da Boca do Lixo, como Mestre Sady Baby, Carlos Nascimento, Chumbinho (é claro!), Márcia Ferro, Sandrinha Midori, Bianchina Della Costa, casal Gabarron. E todas as outras celebridades. Afinal, eles estão à solta... Mas nós... Estamos correndo atrás!!!

 

 

 



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 15h23
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Coca: O Preço de uma Vida (1991)

 

 

Dois personagens, hoje lendários, que permeiam o inconsciente coletivo do povo brasileiro, foram construídos e desenvolvidos por uma única mente brilhante e ousada, o diretor Rubens da Silva Prado. Como a época permitia certas insanidades, os anos oitenta, Alex Prado, seu nome mais conhecido, deitou e rolou no campo do sadismo e extremismo pornográfico. E todas essas cenas dantescas, de aparente violência gratuita, são explicadas por uma análise sociológica plausível, após eu ter quebrado a cabeça para entendê-las. Então vejamos... 

Na onda dos ideais iluministas, semeadas por Jean Jacques Rousseau, e do indianismo romântico de José de Alencar, Alex Prado aperfeiçoou e "abrasileirou" o mito de bom selvagem. Em um raro momento de elucubração epistemológica (não sei o que significa isto), Alex Prado materializou o ideal abstrato do ser humano puro e nativista, na figura do índio Kamoa, no polêmico filme Experiências Sexuais de um Cavalo. 

Já no outro clássico pornô da mesma época, Sexo Erótico na Ilha do Gavião, Alex Prado personificou a síntese do chamado homem médio brasileiro, impregnando seus medos, anseios e frustrações na pessoa de Gregório, o Lenhador. Como o próprio nome indica, Gregório, o Lenhador, é um pacato trabalhador rural humilde que, ao presenciar a misoginia do vilão Gavião, resolve fazer justiça com as próprias mãos, descendo a lenha nos malfeitores que outrora destruíram a sua família. Nisto, Alex Prado sugere uma sutil análise ao positivismo científico de August Comte. Afinal, observa-se cristalinamente em tal filme a Moral, valor da conduta humana inserida dentro de época e tempo definidos. Ocorrendo a ruptura dos valores morais, quebra-se o primordial controle social. Impera então a desordem e a ruína do contrato social preconizado por Thomas Hobbes e... Hã? 

Quando a Boca do Lixo se desestrutura por completo, Alex Prado, persistente e iluminado, pega suas malas, câmera, e vai em direção a São Bernardo do Campo. E em 1991 dirige o obscuro filme policial Coca: O Preço de uma Vida, que retrata a difícil vida do Sargento Carlos contra o império do crime organizado, capitaneado por traficantes de drogas. 

Muito antes de Capitão Nascimento distribuir tapas nos marginais e gritar "Quem manda nesta porra aqui sou eu!", Alex Prado já tinha filmado a sua versão cabocla do policial escroto. Como o "devido processo legal" só existe nos livros de Direito Penal, Sargento Carlos resolve mandar para o inferno perigosos bandidos que traficam a droga alcalóide benzoilmetilecgonina. Ou, em um bom português, cocaína. 

Na primeira cena, Alex Prado é infeliz. Tenta desenhar uma movimentação de drogas dentro da cidade de São Bernardo do Campo. Só que o resultado final é infantil. Vejamos então. Um homem, vestido de babalorixá (!) - ou, se prefere, "pai de santo" - recebe das mãos de um vendedor de pamonha (!!) um pacote de drogas. E o "bagulho", depois de ser entregue a um vendedor de algodão doce (!!!), acaba passando nas mãos de todas as pessoas (!!!!) - todas mesmo - que estão em um parquinho (!!!!!), até mesmo nas mãos de uma grávida (!!!!!!) que está a acompanhar seus filhos pequenos (!!!!!!!) Sem comentários... Porra, Alex Prado exagerou no seu "estudo" sobre a rota de drogas em uma cidade grande... Deveria deixar tal encargo para Walter Fanganiello Maierovitch...

  

Mas vamos aos fatos. Sargento Carlos (interpretado medianamente por Lurial Gomes) é aquele típico policial exemplar, trabalhador, honesto e pai de família. Mas sua vida vira aos avessos após liquidar integrantes da quadrilha de Lombardi, figurão local que comanda o tráfico de drogas. Lombardi, então, se vinga e mata o filho do Sargento Carlos. Pausa agora. O ator que "interpreta" (interpreta?) Lombardi é um cover desnutrido made in Paraguai do cantor Roberto Carlos!

E entre tiros e mais tiros, eis que de repente, para a nossa surpresa, adivinhe quem aparece cheirando pó? Sim, o lendário Renalto Alves, eterno (e fiel) parceiro do mestre Sady Baby e co-diretor dos maiores clássicos da Boca do Lixo.

O papel de Renalto Alves é altamente irrelevante, dura menos de um minuto. Aparece do nada, no meio de um intenso tiroteio, namorando uma loira e fungando o pozinho, como se nada tivesse acontecendo. Os personagens não são bem desenvolvidos (ou melhor, não são nem um pouco desenvolvidos) por Alex Prado. E quase todo o elenco é composto por pessoas sem carisma e sem talento, que só conseguiram trabalhar no filme porque, ou produziu (como é o caso de Armando Ghioldi) ou porque eu sei lá... 

Mas uma questão vem à tona. O que custa contratar beldades para rebolar em Coca: o Preço de uma Vida? Não custa nada. Quer dizer, só um pouquinho - nada que uns trocados não resolvam. Mas não! Os produtores tiveram a coragem de convidar as tribufus mais escalafobéticas da cidade de São Bernardo do Campo, as "dançarinas" da Boate Pilão. Agora eu já sei. Quando eu for a São Bernardo do Campo, vou passar beeeem longe da Boate Pilão. Aliás, eu nem sei como é que este antro brega da boêmia paulista classe Z, a Boate Pilão, tinha alvará de funcionamento. Afinal, acredito eu que não tinha permissão do IBAMA...

Quando o enredo é furado, os atores são medíocres e o diretor não sabe para onde vai, o jeito é apelar na nudez. O Andy Sidaris fazia assim - só para não citar nenhum brasileiro. Em outros filmes do Rubens Prado, nos dos anos 80, o elenco sustentava toda a trama, dava credibilidade, respaldo dramático e erótico. Afinal, o cast era composto por pessoas talentosas e carismáticas, de grande apelo popular. Verdadeiras celebridades como Heitor Gaiotti, Silvio Jr, Débora Muniz, Óasis Minitti, Claudette Joubert e Eliane Gabarron, só para citar. Mas o início dos anos 90 foi como uma hecatombe à cultura brasileira. Quase todos os heróis e heroínas foram para o teatro erótico (ou morreram de AIDS). E os "ordinários" tomaram conta da sétima arte. Mas como impedir? O mundo é composto por fases. Toda ascensão é seguida por declínio. É o chamado "Raise and Fall"...

 

 



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 02h01
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