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Necrofilmes: Obscuridades da 7º Arte


Mundo Cruel

No início da década de 60, os italianos pioneiros Paolo Cavara e Gualtiero Jacopetti dirigiram o clássico documentário Mondo Cane, registrando costumes exóticos e “repugnantes” das mais remotas civilizações. O sucesso comercial foi a guinada para o florescimento da indústria de documentários mondo, na sua maioria picaretas e forjadas, vindas da Itália.

Nude e Crudele (Mundo Cruel) é o exemplo mais bem-acabado da malandragem em forma de celulóide. Certamente nenhum mondo foi tão longe em se tratando de cenas fakes, mentirosas.

Tudo começa com o nascimento de um bebê num hospital de Londres. O narrador (Nick Alexander) emite: “Será que os bebês choram por desprezo em terem vindo ao mundo?”.

A partir desse momento, teoricamente, o documentário mondo Nude e Crudele inicia a jornada aos quatro cantos do mundo, para documentar fatos e costumes de naturezas sócio-morais, sexuais e religiosas das mais distintas culturas.

A abordagem fenomenológica é inicialmente enfocada na Ásia. No Japão, milhares de japoneses tem um inusitado hábito ecumênico: veneram o Deus Falo, carregando estátuas enormes em forma de pênis (!), neste hábito que é, segundo Nude e Crudele, o mais antigo do mundo. Mais ao sul do continente, na Índia, hindus tomam banho em rios sagrados, rios estes que servem de túmulo aos corpos dos mais antigos. Há a presença também de garçonetes de topless, operação de mudança de sexo e prostituição.

Não contesto a veracidade destes episódios. Mas o que vem a seguir não está no gibi: Na África Negra, o circuito interno de filmagens de uma casa flagra um ladrão entrando na residência e sendo morto por uma serpente negra! Acontece que a cena não é mostrada e o “ator” aparece em mais outros quadros picaretas: Na região da África Central, nosso velho conhecido é preso e espancado pela “askari”, policia da região, por ter novamente roubado, desta vez um carro. Ou o diretor Bitto Albertini não tinha dinheiro para contratar mais um ator para forjar as cenas do seu documentário ou nosso amigo africano é um cleptomaníaco safado!

Nude e Crudele beira ao mais completo absurdo: Na índia, um guarda de trânsito, após acabar seu turno, sai de mãos dadas com outro guarda de trânsito, seu namorado! O que este episódio tem a ver com o documentário eu não consegui captar.

O supra-sumo da picaretagem vem em seguida: Uma ameaça crocodila não capturada está preocupando banhistas de um lago por fazer almoços indevidos. Entrevistando moradoras da região sobre o assunto, um jornalista, dono de um mulete de cabelo ridículo, se dirige a uma jovem do local e, de uma forma estranhamente séria e austera, elabora uma pergunta das mais cretinas já profanadas pela história da humanidade:

- Que tal cair na água com um bicho desses por aí?

A jovem, sem graça com a pergunta imbecil do entrevistador, titubeia um pouco e depois responde:

- Não caio mais na água!

Terminando a frase, escuta-se um estrondo lacustre. O cinegrafista corre em direção ao barulho e flagra um jacaré comendo um policial. Rápidas tomadas e cenas em movimento induzem o espectador a acreditar nas filmagens. Mas quem tem um olho treinado como eu percebe que o jacaré é um ridículo brinquedo de plástico. Tem mais: essa é uma cena clássica, copiada do primeiro Faces da Morte (1979).

Sem dúvida nenhuma, o melhor de Nudo e Crudele é a belíssima trilha sonora, a cargo de Nico Fidenco, que compôs a música paro clássico Emanuelle and the Last Cannibals, do maestro italiano Joe D’Amato – que dispensa apresentações.  

As cenas de Nude e Crudele são mal-feitas, amadoras e ridículas, além de ter um duvidoso texto sociológico. Nudo e Crudele saiu há tempos jurássicos pela Vídeo Satélite e vale ver apenas como curiosidade mondo.

 



Escrito por Yúri Koch às 21h41
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Shock

Com muita pouca experiência na área, e na mais tenra idade – 20 anos – o paulistano Jair Correia mostrou uma certa habilidade na direção de seu terceiro – e último – filme: Shock. Desempenhando as múltiplas funções de direção, roteiro e edição, Jair Correia produziu Shock na metade de década de 80, época propícia ao circuito de cinemas lotado por pessoas ávidas em ver assassinos e mulheres nuas, o famigerado gênero slasher.

O roteiro de Shock é demasiadamente simples e insignificante (pela própria lógica slasher pós-Friday the 13th): Terminado um show de rock brega numa casa, alguns jovens continuam por lá. Uns usando drogas, outros transando e muitos dormindo. A farra continua até a chegada inusitada de um desconhecido, que, vestindo sempre roupas e botas pretas, rouba as facas da cozinha para fins não culinários...

No elenco, repleto de amadores, se destacam Taumaturgo Ferreira e a portuguesa Aldine Muller, especializada em pornochanchadas clássicas (O Bem Dotado – Homem de Itu) e filmes mesclando sexo e violência.

Os dois atores dão uma certa dignidade ao Shock, com interpretações fugindo ao estereótipo de gritos e feições descaracterizadas. Na maior parte do tempo, ficam presos dentro de um quarto, temendo a morte e os corpos espalhados pelos cômodos da casa, enquanto o psicopata, que nunca tem o rosto mostrado, ronda a residência, espreitando-os.

O desespero deles em um espaço incômodo e tenso incita uma crescente paranóia, a tal ponto que os enquartelados decidem encarar a ameaça, pois a única saída que dá pra fora da casa está protegida pelo maníaco desconhecido.

Jair Correia acertou nas cenas de assassinatos em slow motion. A trilha sonora ao fundo, composta com a participação também do diretor, ajuda na criação de um clima macabro e doentio. Mais macabro e brutal ainda é a forma com que o serial killer se utiliza para chacinar. Muitas vezes o uso das próprias mãos, degolando as moças indefesas, sem facas e outras armas brancas, torna o filme mais real e aceitável.

Isso talvez porque a equipe técnica não possuía recursos para filmar o gore do sangue no caso de assassinatos com facas...

Shock está fora de catálogo. Saiu em VHS pela CIC Vídeo e dificilmente sairá em DVD. Infelizmente está condenado ao eterno anonimato.

 

 



Escrito por Yúri Koch às 19h50
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