Seita do Sexo Profano (1986)
Vamos mais uma vez falar da época hardcore da Boca do Lixo. A peróla desta vez é o Seita do Sexo Profano. Infelizmente o meu filme está com uma imagem um pouco escurecida, talvez pela própria copiagem porca do estúdio Vídeo Satélite.
Sandra Morelli (creditada como “Sandra de Sá”) faz o papel de Claudete, uma mulher que passa uma temporada na praia, onde relembra fatos até então postergados à obscuridade. Mexendo em sua memória, ela se lembra que, anos atrás, flagrou sua amiga com a boca na botija de seu marido (se é que vocês me entendem...).

Mas como na Boca do Lixo todo mundo chifra todo mundo, Sandrinha acaba fazendo as pazes com o marido (o ator e diretor Custódio Gomes, responsável pelo clássico do “cinema do bom-gosto” Alucinações Sexuais de um Macaco).
Morelli ficou particularmente conhecida pelo público Boca do Lixo protagonizando uma séria de filmes eqüinos do diretor Juan Bajon, na qual contracenava na maioria das vezes com Ronaldo “bigode de porteiro” Amaral. Juntos, a dupla dinâmica Morelli/Amaral fez os filmes Tudo por um Cavalo, Seduzida por um Cavalo, Sexo à Cavalo, Meu Marido Meu Cavalo e todos os filmes que tenham a palavra “cavalo”. Mas essa fase do Juan Bajon eu falo outra hora.
Também, a partir de flash-back, Claudete se lembra de uma seita satânica, liderada por uma coroa, na qual acabou participando. Mas de satânico a seita não tem nada. Mero pretexto para o diretor Fauzi Mansur (creditado no filme com um dos seus pseudônimos, Victor Triunfo), mostrar cenas de surubão.

Devemos observar que o cenário do Seita do Sexo Profano é uma praia e seus arredores. Isso tem uma explicação econômico-climática: muitos filmes da extinta Boca do Lixo eram rodados em praias, à beira-mar. Isso barateava o custo de produção. Afinal, filmagem na cidade grande é mais cara que lugares foras do eixo urbano. Também as locações litorâneas causam uma certa sensação de liberdade no público espectador. As praias eram locais de liberdade, erotismo, corpos nus à mostra, queimados pelo Sol. Na praia, a mulher (e o homem), contemplava a fuga da realidade, se encontrando e descobrindo o mundo exterior (representado pelos cenários paradisíacos) e o interior, centrado no “eu” humano (caramba, cada vez mais estou me superando, hein?).
Também informo que as cenas eram rodadas fora de estação de veraneio. As tomadas eram feitos em época de frio, isto porque a hospedagem era mais barata (quem é o retardado que vai passar temporada na praia durante o inverno?) e não tinham muitos Zé Manés para atazanar a equipe de filmagem.

Há de se destacar também o elenco feminino coadjuvante do Seita do Sexo Profano. Olhe bem para essas mulheres da foto aí embaixo. São mulheres do povo, legitimas representantes das classes populares. Certamente elas não conhecem as palavras “salão de beleza”. Elas cortavam os cabelos com alicate e serra elétrica e alisavam os fios capilares usando um martelo e uma marreta! Imagina se ela fosse sua esposa. Você chega em casa cansado, trabalhou o dia todo, levou bronca do chefe e brigou no trânsito. Quando abre a porta de sua casa, se confronta com essa criatura pós-apocalípitca na sua cama. O que você faria? Eu ia é dormir no sofá (ou, de preferência, na casa da vizinha... se é que vocês me entendem...).

O que foi a Boca do Lixo? Simples, um cinema com a cara e o cheiro do povo. É isso aí, galera. E que venham as classes populares!
Escrito por Yúri Koch às 18h28
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