Borboletas e Garanhões (1985)

A noite se aproxima. Um carro estaciona em uma rua deserta e mal iluminada. Desce do carro um casal, que se dirige a uma casa. São os noivos Leonora e Lauro. Na cozinha, Leonora, insaciável, aplica um fellacio em Lauro. Só que a mãe de Leonora (mãe é sempre estraga prazer) entra na cozinha. Lauro, pego de surpresa, enfia seu dito-cujo na geladeira, para que sua sogra não flagre a cena.
Assim inicia o filme Borboletas e Garanhões, do mestre Alfredo Sternheim. Uma abertura bem trabalhada, demonstrando toda a habilidade do diretor em conduzir personagens para situações cômicas, pinceladas com um sexo sutil, inserido corretamente na história.
Em Borboletas e Garanhões, o personagem Lauro está prestes a se casar com Leonora, uma mulher dinâmica e rica – interpretada magistralmente pela atriz Debora Muniz, em uma das melhores atuações cênicas da fase hardcore brasileira.
Véspera de casamento, na vida e na Boca do Lixo, é sinônimo de despedida de solteiro, que é sinônimo de bacanal. Para praticar tal ato, Lauro combina com os amigos um baco-baco em uma casa de campo. Antes de tal evento acontecer, porém, Lauro, andando despercebido na rua, tropeça com... Sabe quem? Sim, ela, a musa mais gostosa da Boca do Lixo, a ninfetona asiática, vinda diretamente do Oriente: a nissei Sandra Midori. Pois bem, conversa vem, conversa vai e, obviamente, na Boca do Lixo, se duas pessoas se conhecem, elas vão se conhecer ainda melhor na cama. E na vida real também, não? E não é que Lauro leva a musa para quatro paredes? É muito bonito ver Sandra Midori em ação. Com uma beleza oriental exótica, toda pequenininha, os braços miudinhos, esbanja sensualidade! Sandrinha é fogo!
Sandrinha Midori, na humilde opinião de Necrofilmes, foi a mulher que mais representou com dignidade o ciclo pornô-povão da Boca do Lixo.
Quando eu tiver dinheiro, vou abrir uma distribuidora oficial de filmes da Boca do Lixo. O primeiro lançamento vai ser um pack de DVD’s chamado mais ou menos Sandra Midori Classic Collection, com a filmografia completa da musa: Fêmeas Que Topam Tudo, Hospital da Corrupção e dos Prazeres, Sexo Livre, entre vários outros.
E o segundo lançamento da empresa Necrofilmes será The Best of Dwarf Chumbinho: The Small Prince of Boca do Lixo (algo como “O Melhor do Anão Chumbinho: O Pequeno Príncipe da Boca do Lixo”). Mas isso já é uma outra história...
Voltando ao filme. Após Lauro satisfazer os anseios sexuais de Midori (que eufemismo para a palavra “sexo”, não?) – cena esta ao som de música clássica, conferindo à cena um charme, uma elegância extremamente fina (mestre Sternheim gostava de empregar aos seus filmes música erudita e temas políticos) – Lauro finalmente vai com seus colegas para a casa de campo, local onde será realizada a festa em homenagem ao Deus Baco.
Chegando lá, uma surpresa. Além de algumas mulheres, eis que surge, saindo diretamente dos portões do inferno, uma criatura grotesca-híbrida-neo-Armagedon-tosca chamada “travesti Naná”. Naná tem a aparência tão repulsiva que, quando entra em ação, a cena pode ser classificada como zoofilia pura!
Traveco Naná protagoniza uma das cenas mais engraçadas da Boca do Lixo, digno de entrar para os anais da Boca (se é que vocês me entendem).
Ao ser sodomizada por um “homem” (homem sai com esse tipo de gente?), o mesmo olha para Naná e pergunta, melancólico:
– Já que você operou tudo, por que não tirou esse pau e colocou uma xoxota?
E Naná responde:
– E eu gozo por onde, pelo nariz?
Podemos explicar essa situação tragicômica através do hedonismo presente no ciclo explícito da Boca do Lixo (“aproveite o dia”, “a vida é curta e você tem que aproveitá-la ao máximo”), adicionada ao elemento do humor. O povão ria e ao mesmo tempo gozava (se é que vocês me entendem) nos cinemas, isso nos anos 80.
Borboletas e Garanhões é um dos melhores que mestre Sternheim fez no período pós-1983, quando descambou para a pornografia. Divertido, leve, com uma trilha sonora clássica misturada à harmonia perfeita do corpo de Sandra Midori, em contraste com a feiúra da Naná. A síntese de todos os ingredientes da Boca do Lixo. Que de lixo não tem nada. É a nossa Boca de Ouro!
Quer saber por que a Boca do Lixo é divertida e engraçada? Volte ao início do texto!
Escrito por Yúri Koch às 14h09
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