A Menina do Sexo Diabólico (1987)

Não é todo filme da Boca do Lixo que tem a honra de contar no elenco com uma atriz denominada a “Cicciolina brasileira”. Esse mérito vai para A Menina do Sexo Diabólico, dirigida em 1987 pelo diretor Mário Lima. Então estreante na direção de filmes pornôs, Mário Lima tinha no currículo o cargo de produtor dos maiores êxitos de bilheteria de sexo explícito do cinema paulistano: 5º Dimensão do Sexo e 48 Horas de Sexo Alucinante, ambos do José Mojica Marins, o Zé do Caixão.
Apesar de serem pessoas totalmente diferentes, fisicamente e na arte de fazer sexo, Makerley Reis ficou conhecida como a “Cicciolina do Bexiga”. Vamos aos fatos:
Cicciolina: Musa húngara, corpo alvo e liso, branquinha e cheirosa. Cabelo liso e loiro, caindo até a cintura. Sempre porta luvas brancas, faz cara de sapeca e biquinhos enquanto “cavalga”. Gosta de segurar e mostrar para todo mundo o seu ursinho de pelúcia. E também outro bichinho peludo que ela tem... (se é que vocês me entendem...).
Makerley Reis: Paulista, não muito bonita, não muito libertária quando o assunto é sexo. Gordurinha localizada, cabelo bagunçado, peito caído. Tímida, um tanto quanto desengonçada. Não faz sexo oral. Uma mulher normal, do povão. Aquela típica mulher que você tem na sua casa, meu caro leitor!
Mas por que diabos chamar a atriz Makerley de “Cicciolina do Bexiga”? Isso tem a ver com um folclore político. Makerley Reis, então candidata à Câmara de Vereadores, em plena campanha política – isso há anos atrás –, tirou a blusa e mostrou os peitos pro povão, com o intuito de assegurar simpatizantes. E olha que tal cena ocorreu dentro da sede paulista da OAB, durante uma conferência na qual estava presente o Leonel Brizola! Imagina a cara do Brizola, meu Deus do céu! O velho quase teve um enfarto!
Pode-se analisar tal evento como uma nítida influência do comportamento extrovertido da musa Cicciolina (a original, e não a do Bexiga). Sempre nos períodos de campanha política da Itália, a candidata parlamentar Cicciolina alegrava os seus eleitores desfilando com os seios à mostra. A musa húngara, adotada pelo país da bota, também polemizava com os seus discursos, pregando o sexo livre e apoiando a descriminalização da pedofilia. No início da década de 90, a Cicciolina, então deputada da Itália, mais uma vez causou alvoroço: ofereceu se deitar com o Saddam Husseim, caso o líder sunita parasse com a Guerra do Golfo. Se eu fosse o Saddam eu faria é um acordo de paz com os E.U.A.! Mas ele não quis. Acabou se fodendo. Perdeu um pescoço, enquanto poderia ganhar uma deusa. Isso que é ironia, não?
Voltemos ao filme A Menina do Sexo Diabólico. Makerley Reis é Vânia, uma moça inquieta, que está entrando na adolescência e descobrindo os prazeres do corpo. Em um dia que mais parecia como outro qualquer, pega carona com o namorado para ir à escola. Dentro do carro, papo vem, papo vai. O namorado da Cicciolina do Bexiga pergunta se ela não quer ir para praia. Como toda estudante brasileira que se preze, Vânia gosta de tudo, menos de estudar. E ambos vão à praia. Aliás, é mais útil, caro leitor, você sair com sua “mina” do que ir à escola aprender que a hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos (ou será o quadrado das somas dos catetos?).
Como os desencontros da vida, Vânia leva um chifre. Depois, conhece um primo distante, vai para o sítio com ele, perde a virgindade também com ele (antes ela dava só por trás), faz juras de casamento, é estuprada pelos outros primos e morre baleada. Isso eu contei porque não é bom ficar esmiuçando as histórias dos filmes. Filme é para ser visto, não é para ser contado.
Analisando-se sucintamente A Menina do Sexo Diabólico, pode-se aferir que Mário Lima fez um filme medíocre, não respeitando e honrando o glorioso legado que a Boca do Lixo conquistou. Mário Lima não tem o sentimentalismo do Alfredo Sternheim, a irreverência do Custódio Gomes, a genialidade do Sady Baby e a porra-louquice do Tony Vieira. A Menina do Sexo Diabólico varia entre o regular e o ruim. Inexistem os principais ingredientes do cinema hardcore paulistano: situações tragicômicas, cenas irônicas, personagens caricatos, pluralidade sexual e atrizes marcantes. É um lenga-lenga melodramático, cujo estopim é um final apocalíptico que descamba para o grotesco, com o ator Walter Gabarron (marido da atriz Eliane Gabarron - o casal 69 da Boca do Lixo), destruindo tudo e todos por sua amada (e prima) ter sido estuprada e morta. Também não ajudou muito o fato do meu filme estar com o áudio contrastando entre o bom e o inaudível. Enfim, desagradou... Entre a Cicciolina da Itália e a do Bexiga, eu fico é com a original.
P.S.- Makerley Reis, mesmo tirando a roupa, não conseguiu se eleger para a Câmara de Vereadores. Isso é que eu chamo de “desagradar”, viu?
Escrito por Yúri Koch às 02h38
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