Revelações Sexuais de uma Sexomaníaca (1987)

Não, amigo, não se deixe enganar pela capa. Apesar de a mesma informar “Um dos melhores pornôs nacionais de todos os tempos”, passa longe, muito longe dessa assertiva. O ano é 1987. Juan Bajon, símbolo máximo da produção pornográfica, no auge de seus filmes com temáticas eqüinas, decide escrever, produzir e dirigir Revelações Sexuais de uma Ninfomaníaca.
Mas antes de continuarmos, é de bom tom que façamos uma retrospectiva cultural-cinematográfica. No início da década de 60, George Cukor dirigiu o clássico musical My Fair Lady, baseado na peça teatral Pygmalion, do escritor irlandês George Bernard Shaw (Necrofilmes também é cultura!). My Fair Lady narra a história de um professor que, devido a uma aposta, faz de tudo para transformar uma mulher pobre em uma dama da high society, alta sociedade.
– Mas que porra, Yúri! Eu entro aqui neste blog pra ler resenhas de filmes de safadeza, e não musicais ou peças de teatro. Que merda isso tem a ver com a Boca do Lixo?
Certamente pergunta você, nobre leitor. Mas calma, meu amigo, eu explico. Digamos assim, Revelações Sexuais de uma Sexomaníaca é uma versão hardcore tupiniquim do clássico My Fair Lady. Ou, usando o termo certo para designar versões não-autorizadas de outros filmes, “ripoff”. Portanto, Revelações Sexuais de uma Sexomaníaca é um ripoff brasileiro do musical My Fair Lady. Obviamente com “pequenas” modificações.
Como estamos no Brasil, Audrey Hepburn, a humilde mulher vendedora de flores que seria transformada em uma dama da alta sociedade, aqui na Boca do Lixo é uma garota de programa bissexual de leves tendências masoquistas, interpretada pela exótica Bianca Chernier. E o professor que almeja a transformação comportamental da pobre moça (Rex Harrison), na Boca do Lixo é um cafetão hedonista interpretado pelo nosso velho conhecido Ronaldo Amaral. Obviamente o My Fair Lady com ingrediente tupiniquim não sairia com bom resultado...
Ronaldo Amaral estava fazendo um filme atrás do outro na produtora Galápagos, sob direção de Juan Bajon, e quase sempre contracenando com sua grande parceira, Sandra Morelli. A relação entre Amaral e Morelli é tão intensa que quando falamos de um, lembramos da outra, e vice-versa. São duas figuras indissociáveis da indústria pornô, assim como o casal gringo Kascha e François Papillon.
Mas Sandra Morelli – que digamos assim, não tem grandes habilidades, seja física ou cênica – não dá o ar de sua graça no Revelações Sexuais de uma Sexomaníaca, sendo substituída por Bianca Chernier, a garota de programa endiabrada que sofre paulatinas mudanças de comportamento.
A escolha de Bianca Chernier no elenco não poderia ser melhor. Além de ter uma beleza exótica, convence muito como a prostituta histérica bissexual adepta do masoquismo (que coisa, não?). Bianca Chernier convence tanto que eu afirmo: é um dos melhores trabalhos de uma atriz em um filme pornográfico da Boca do Lixo. O que é um grande feito, afinal, qualquer pessoa (qualquer pessoa mesma, não importando idade, tipo físico ou opção sexual) que estivesse pass(e)ando nas mediações da Rua Triumpho era contratada para participar dos filmes pornográficos.
Bianca Chernier tem uma beleza atraente e trabalha corretamente. Além dos tradicionais coitos papai-mamãe com Ronaldo Amaral, faz cenas quentes de lesbianismo ao lado da tatuada Ludmila Batalov. Assim como Chernier, Ronaldo Amaral, acho eu, fez o seu melhor trabalho na Boca do Lixo. Para você ter uma idéia, nos outros filmes que Ronaldo Amaral participou (Sexo a Cavalo, Loucas por Cavalo, Seduzida por um Cavalo, por exemplo) os cavalos interpretaram melhor que o próprio Ronaldo Amaral!
Apesar dos desempenhos corretos e memoráveis tanto de Ronaldo Amaral quanto de Bianca Chernier, Revelações de uma Sexomaníaca é mais um trabalho banal, supérfluo, corriqueiro e irrelevante do Juan Bajon. Não que eu tente azucrinar o chinês Juan Bajon, eu acredito no trabalho dele e na sua capacidade de direção – Taras de Colegiais, por exemplo, é um puta filme! Mas Revelações Sexuais de uma Sexomaníaca tem pouquíssimas cenas criativas – quando, por exemplo, Ronaldo Amaral conversa com o espectador, confessando que ele é um personagem de um filme pornô. Além dos poucos espasmos de criatividade, Revelações Sexuais de uma Sexomaníaca tem somente quatro personagens ao longo do filme (isso mesmo, só quatro!), o que o torna amarrado e demorado, sem norteamento.
A ninfomaníaca Bianca Chernier trabalhou também com o diretor e produtor Juan Bajon nos filmes Gatinhas Safadas e Gatinhas às Suas Ordens. Mas isso vovô conta na próxima semana, meus netinhos.
Escrito por Yúri Koch às 15h15
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