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Necrofilmes: Obscuridades da 7º Arte


Coca: O Preço de uma Vida (1991)

 

 

Dois personagens, hoje lendários, que permeiam o inconsciente coletivo do povo brasileiro, foram construídos e desenvolvidos por uma única mente brilhante e ousada, o diretor Rubens da Silva Prado. Como a época permitia certas insanidades, os anos oitenta, Alex Prado, seu nome mais conhecido, deitou e rolou no campo do sadismo e extremismo pornográfico. E todas essas cenas dantescas, de aparente violência gratuita, são explicadas por uma análise sociológica plausível, após eu ter quebrado a cabeça para entendê-las. Então vejamos... 

Na onda dos ideais iluministas, semeadas por Jean Jacques Rousseau, e do indianismo romântico de José de Alencar, Alex Prado aperfeiçoou e "abrasileirou" o mito de bom selvagem. Em um raro momento de elucubração epistemológica (não sei o que significa isto), Alex Prado materializou o ideal abstrato do ser humano puro e nativista, na figura do índio Kamoa, no polêmico filme Experiências Sexuais de um Cavalo. 

Já no outro clássico pornô da mesma época, Sexo Erótico na Ilha do Gavião, Alex Prado personificou a síntese do chamado homem médio brasileiro, impregnando seus medos, anseios e frustrações na pessoa de Gregório, o Lenhador. Como o próprio nome indica, Gregório, o Lenhador, é um pacato trabalhador rural humilde que, ao presenciar a misoginia do vilão Gavião, resolve fazer justiça com as próprias mãos, descendo a lenha nos malfeitores que outrora destruíram a sua família. Nisto, Alex Prado sugere uma sutil análise ao positivismo científico de August Comte. Afinal, observa-se cristalinamente em tal filme a Moral, valor da conduta humana inserida dentro de época e tempo definidos. Ocorrendo a ruptura dos valores morais, quebra-se o primordial controle social. Impera então a desordem e a ruína do contrato social preconizado por Thomas Hobbes e... Hã? 

Quando a Boca do Lixo se desestrutura por completo, Alex Prado, persistente e iluminado, pega suas malas, câmera, e vai em direção a São Bernardo do Campo. E em 1991 dirige o obscuro filme policial Coca: O Preço de uma Vida, que retrata a difícil vida do Sargento Carlos contra o império do crime organizado, capitaneado por traficantes de drogas. 

Muito antes de Capitão Nascimento distribuir tapas nos marginais e gritar "Quem manda nesta porra aqui sou eu!", Alex Prado já tinha filmado a sua versão cabocla do policial escroto. Como o "devido processo legal" só existe nos livros de Direito Penal, Sargento Carlos resolve mandar para o inferno perigosos bandidos que traficam a droga alcalóide benzoilmetilecgonina. Ou, em um bom português, cocaína. 

Na primeira cena, Alex Prado é infeliz. Tenta desenhar uma movimentação de drogas dentro da cidade de São Bernardo do Campo. Só que o resultado final é infantil. Vejamos então. Um homem, vestido de babalorixá (!) - ou, se prefere, "pai de santo" - recebe das mãos de um vendedor de pamonha (!!) um pacote de drogas. E o "bagulho", depois de ser entregue a um vendedor de algodão doce (!!!), acaba passando nas mãos de todas as pessoas (!!!!) - todas mesmo - que estão em um parquinho (!!!!!), até mesmo nas mãos de uma grávida (!!!!!!) que está a acompanhar seus filhos pequenos (!!!!!!!) Sem comentários... Porra, Alex Prado exagerou no seu "estudo" sobre a rota de drogas em uma cidade grande... Deveria deixar tal encargo para Walter Fanganiello Maierovitch...

  

Mas vamos aos fatos. Sargento Carlos (interpretado medianamente por Lurial Gomes) é aquele típico policial exemplar, trabalhador, honesto e pai de família. Mas sua vida vira aos avessos após liquidar integrantes da quadrilha de Lombardi, figurão local que comanda o tráfico de drogas. Lombardi, então, se vinga e mata o filho do Sargento Carlos. Pausa agora. O ator que "interpreta" (interpreta?) Lombardi é um cover desnutrido made in Paraguai do cantor Roberto Carlos!

E entre tiros e mais tiros, eis que de repente, para a nossa surpresa, adivinhe quem aparece cheirando pó? Sim, o lendário Renalto Alves, eterno (e fiel) parceiro do mestre Sady Baby e co-diretor dos maiores clássicos da Boca do Lixo.

O papel de Renalto Alves é altamente irrelevante, dura menos de um minuto. Aparece do nada, no meio de um intenso tiroteio, namorando uma loira e fungando o pozinho, como se nada tivesse acontecendo. Os personagens não são bem desenvolvidos (ou melhor, não são nem um pouco desenvolvidos) por Alex Prado. E quase todo o elenco é composto por pessoas sem carisma e sem talento, que só conseguiram trabalhar no filme porque, ou produziu (como é o caso de Armando Ghioldi) ou porque eu sei lá... 

Mas uma questão vem à tona. O que custa contratar beldades para rebolar em Coca: o Preço de uma Vida? Não custa nada. Quer dizer, só um pouquinho - nada que uns trocados não resolvam. Mas não! Os produtores tiveram a coragem de convidar as tribufus mais escalafobéticas da cidade de São Bernardo do Campo, as "dançarinas" da Boate Pilão. Agora eu já sei. Quando eu for a São Bernardo do Campo, vou passar beeeem longe da Boate Pilão. Aliás, eu nem sei como é que este antro brega da boêmia paulista classe Z, a Boate Pilão, tinha alvará de funcionamento. Afinal, acredito eu que não tinha permissão do IBAMA...

Quando o enredo é furado, os atores são medíocres e o diretor não sabe para onde vai, o jeito é apelar na nudez. O Andy Sidaris fazia assim - só para não citar nenhum brasileiro. Em outros filmes do Rubens Prado, nos dos anos 80, o elenco sustentava toda a trama, dava credibilidade, respaldo dramático e erótico. Afinal, o cast era composto por pessoas talentosas e carismáticas, de grande apelo popular. Verdadeiras celebridades como Heitor Gaiotti, Silvio Jr, Débora Muniz, Óasis Minitti, Claudette Joubert e Eliane Gabarron, só para citar. Mas o início dos anos 90 foi como uma hecatombe à cultura brasileira. Quase todos os heróis e heroínas foram para o teatro erótico (ou morreram de AIDS). E os "ordinários" tomaram conta da sétima arte. Mas como impedir? O mundo é composto por fases. Toda ascensão é seguida por declínio. É o chamado "Raise and Fall"...

 

 



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 02h01
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