O Assassino da Noite (1978)

Em fevereiro de 1926, Rocco, um engraxate de 9 anos, estava terminando os seus serviços diários. O local, imediações da praça da Concórdia, no Brás. Após um dia de labuta, percorrendo as ruas fétidas e alagadas pela chuva, é atacado por um negro alto e de nariz pontiagudo. Fingindo-se de morto, e aproveitando a ausência do seu violentador devido à movimentação de carros, consegue escapar com vida. Meses depois, José Augusto do Amaral, o negro violentador de crianças, seria preso. A derradeira história do primeiro assassino em série do Brasil, conhecido como Preto do Amaral. O tema serial killer sempre provoca calorosos debates pela opinião pública, que não teima em proferir sentença de morte ao primeiro caso que envolva carrasco em série. O tempo em que urge o ódio e a vontade de vingança é o tempo necessário para apaziguar os ânimos. Ao tardar de algumas semanas, aquele maldito violentador em série, massacrado pela opinião pública, é esquecido por todos. Quando se ouve falar sobre serial killer, vem a mente nomes consagrados, como Ted Bundy, Richard Ramirez e Charles Manson. Três nomes de fama internacional, conhecido por todos por seus atos de crueldade e perversão. Porém, se o assunto é o psicopata nativo, oriundo da terra do Carnaval e do samba (e da mulher pelada), o que surge é um grande ponto de interrogação. Quem são os malditos? É dentro deste terreno fértil e traiçoeiro, onde abundam casos grotescos envolvendo mulheres violentadas e estripadas, que o mestre Juan Bajon faz o seu debut no cinema, com o filme O Assassino da Noite. Uma estréia brilhante, que já mostrava todo o talento do diretor em construir, com um enredo simples e aparentemente pobre, uma história envolvente, recheado de personagens enigmáticos e compulsivos. 
Inesperadamente, ao clarear da manhã, começam a surgir corpos de mulheres abandonados no meio das ruas, mutiladas e com aparentes indícios de violação sexual. Exames aprofundados revelam que o maníaco mutilava e estripava as suas vítimas, um ritual que caracteriza o seu modus operandi. Moças belas e jovens, que por uma crueza do destino, tem os seus corpos perfeitos transformados em carne putrefata. 
Certamente, além da firme direção de Juan Bajon, a interpretação de Ewerton de Castro, encarnando o assassino em série, contribuiu para que O Assassino da Noite seja um dos melhores suspenses já feitos no Brasil. Ewerton de Castro externiza o arquétipo ideal dos sociopatas. Sem maneirismos ou clichês, mantém uma distância emocional e frieza necessários à apreensão de qualquer espectador. Seu olhar penetrante é tão duro como um golpe de navalha cortando os mamilos das suas vítimas. 
Em meio a tantas mortes e a crescente fome da opinião pública por justiça (ou vingança), e devido à incompetência da chamada “polícia investigativa”, Pascoal, um inocente trabalhador de um matadouro – o ator Carlos Koppa (erroneamente descrito no IMDB como Ewerton de Castro) – é preso e massacrado por todos. Apenas um pequeno indício de que era amante de uma das vítimas do sociopata (a atriz Aldine Müller, em uma presença apagada) foi o suficiente para ser metido atrás das grades. 
Ao contrário de hoje, em que uma produção com o tema serial killer enfoca a profusão de sangue e o gore, de forma canhestra e imatura, esquecendo (e deixando de lado) todos os outros elementos que contribuem para a boa apreciação de uma obra cinematográfica, como o desenvolvimento dos personagens e diálogos consistentes, O Assassino da Noite fazia o inverso. Em certos momentos, a câmera é esquivada para fora do elevador, quando o psicopata está prestes e atacar mais uma fêmea. O que se vê são movimentações bruscas dos pés dos personagens, indicando que mais uma carnificina ocorreu. Momentos sugestivos e criativos como este não tem mais espaço dentro da mente dos nossos célebres diretores de filmes extremos, que ajudam a jogar na lata de lixo tudo aquilo de grandioso que a Boca do Lixo ajudou a construir...
Ewerton de Castro, um ator com ótima presença artística, hoje em dia atua nas escalafobéticas novelas da Record. O papel do corcunda Belchior, em Escrava Isaura, foi um constrangedor presente de grego a um artista que soube honrar a filmografia brasileira. Merecidamente, O Assassino da Noite agradou à crítica da época. Um feito e tanto, dado à arrogância e elitismo prosaico dos soberbos críticos do Brasil. Um detalhe importante é a alfinetada sutil e quase imperceptível de O Assassino da Noite. No final, após a autoria dos crimes ter sido descoberto, Pascoal, sua esposa e sua filha (Ana Paula Bajon, provavelmente a filha de Juan Bajon), são agora alçados à categoria de “família brasileira exemplar”, chegando a dar entrevista até mesmo a programas sensacionalistas da TV, os mesmos que antes acusaram e condenaram o inocente. 
A mídia nativa, guardiã da moralidade e do comportamento retilíneo, preocupada mais com os lucros vorazes dos seus comerciais, é a primeira a atirar com badogue. Ao ver que a pedra arrebentou a própria janela (maculando a vida de inocentes), se redime e exalta o chamado cidadão comum. Cidadão este, que, devido a um "erro judiciário" (e não da própria mídia irresponsável com seus ataques), sai da condição de assassino a herói da sociedade. Tema atual, né? E não se esqueça! O acervo do blog Necrofilmes adquiriu dezenas e dezenas de produções obscuras. Confira na Seção 1 e na Seção 2.
Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 16h03
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