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Necrofilmes: Obscuridades da 7º Arte


Sexo Doido (1986)

 

Em todo e qualquer período da história, uma das características mais intrínsecas à produção pornográfica é a submissão do gênero feminino aos anseios depravados do homem. A mulher vista como mero objeto de satisfação sexual do macho, uma figura descartável após o ato sexual. A acessoriedade da mulher é observada desde os primórdios das filmagens de sexo explícito. Os chamados stag films, produções amadoras e clandestinas, filmadas no início do século XX, já mostravam a subserviência e secundariedade feminina nas relações sexuais. A própria finalidade dos stag films, geralmente exibidos em bordéis da França e países europeus, objetivava despertar o interesse do público masculino pelas mulheres “da casa”. Em Free Ride, de 1915, duas moças, perambulando em uma estrada deserta, são agraciadas com uma carona de um desconhecido. Desde que preenchida uma certa condição: Hello girls, want a ride? I’m going your way, and I’ll be nice... If you promise to be good... Conforme dizem os diálogos escritos, que interrompem as ações dos três protagonistas.

 

Diferentemente da tendência que predominava no mundo até então, muitos filmes da produtora brasileira Galápagos, do chinês Juan Bajon, caracterizava-se por uma “inversão” de papéis. Uma espécie de esboço do que viria a ser o chamado femdom, dominação e supremacia feminina em relação ao homem – hoje em dia muito ligado ao cenário sadomasoquista. A mulher, detentora do poder, manda, desmanda e dá punições físicas no sexo masculino. O femdom, enquadrado hoje como subgênero sadomasoquista, conquistou recentemente ares de pseudo-snuff movie com a grotesca série japonesa Yapoo Market, em que homens são brutalmente espancados por mulheres vestidas de couro, as dominatrix.

 

Em Sexo a Cavalo, da produtora Galápagos, Sandra Morelli trata seu parceiro Ronaldo Amaral como se cavalo fosse. E em Sexo Doido, novamente temos uma outra insanidade da Sandra Morelli. Desta vez, amarrando com cordas o seu o parceiro, como um slave, escravo.

 

A lendária Galápagos tinha como carro-chefe o diretor Juan Bajon, e as ações pornográficas ficavam a cargo do casal Ronaldo Amaral e Sandra Morelli, quase sempre em porno-aventuras no meio do sítio, presenciando as farras sexuais de cavalos tarados. Quando não estava dirigindo, Juan Bajon designava seu fiel ajudante Alfredo Sternheim pata tal ofício. E em 1986, aproveitando quase o mesmo elenco e cenário, Alfredo dirigiu dois filmes em um pequeno espaço de tempo, Sexo Doido e Sexo em Festa, fazendo pequenas alterações no roteiro.

 

Em Sexo Doido, Jô – Sandra Morelli – é uma mulher insatisfeita com a vida sexual. Seus dias de tédio perduram até o dia em que assiste a uma produção pornográfica dentro do cinema, onde acaba manifestando uma estranha paixão pelo ator do filme, Gino Copolla – o ator Fernando Sábato. Decidida a se encontrar com ele, procura-o por todos os cantos, acabando por se lembrar que tem uma amiga ex-atriz pornô, que provavelmente poderá saber o paradeiro do enigmático Gino Copolla. Então pega o telefone e liga para a sua velha conhecida, a musa Márcia Ferro. Só que Jô ligou numa hora errada. Márcia Ferro, ocupada, não pode falar direito, porque está com a boca cheia... Se é que vocês me entendem...

 

 

  

Até que o dia mais esperado por Jô chega. Ela acaba se encontrando com o seu amor platônico, em uma boate de striptease. Conversa vem, conversa vai e Jô, oferecendo dinheiro ao Gino, convida-o a passar uma temporada no sítio dela, para uma possível série de entrevista sobre como é ser ator pornô e como é a vida dos que se aventuram neste gênero de cinema.

 

 

 

A Galápagos tinha uma fórmula certa para fazer sucesso nos cinemas e obter lucros: histórias comuns, quase banais, sem muitos atrativos, e um par de atores centrais que dessem conta do recado. Quase tudo muito apressado, feito na correria, uma vez que o processo de produção na chamada época de ouro da fase “ripa-na-chulipa” tupiniquim, determinava filmes mais simples possíveis, rodados em menos de 4 dias, para logo serem exibidos nos cinemões. E era de suma importância a presença no elenco de um casal já conhecido, de forte apelo comercial na época. Como por exemplo, as duplas Ronaldo Amaral e Sandra Morelli, Walter Gabarron e Eliane Gabarron, Sandra Midori e Wagner Maciel.

 

Dotada de um certo grau de esquizofrenia, Jô oferecendo muito álcool a Gino, faz com que o mesmo desmaie. Logo em seguida, executa o seu excêntrico plano: amarra o pobre coitado em uma cama, forçando-o a uma série de transas, dia e noite. Uma compulsão no estilo bondage, em que a vítima acaba gostando, até certo ponto, da “brincadeira”. Mas por que a necessidade de amarrar o ator na cama? Aí Freud explica: Porque Jô é uma mulher cansada dos machismos e da total submissão feminina à figura do homem fálico. A mulher quer ditar as regras quando o assunto é “ragatanga”.

 

 

 

Mas que feminismo chato da porra é esse! – exclama certamente algum leitor. No entanto, é interessante mostrar a ótica do diretor Alfredo Sternheim em tentar desvendar o funcionamento de certas mentes femininas, as “feministas”. Mas tudo deságua em um certo machismo, já que no final de Sexo Doido é explicado que Jô é esquizofrênica. Inconscientemente ou não, Alfredo Sternheim quis dizer que qualquer tentativa, por parte da mulher, de se desgarrar do papel secundário e descartável que ocupa no relacionamento sexual, é fruto de uma esquizofrenia, uma loucura, uma patologia grave. Ou é isso ou eu viajei legal no ácido lisérgico.

 

Há quem reclame das incansáveis presenças de música clássica, tocando a toda hora, com ou sem cenas de volúpia. Realmente, é um pouco insuportável essa característica, que chega a irritar em certos momentos. Ela não para de tocar. Como qualquer tipo de música ou efeitos sonoros, o diretor tem que saber inseri-la no momento adequado. Não é o caso dos filmes da Galápagos. A música clássica, se tocada em determinadas produções pornôs, e da maneira adequada, pode dar um ar de insanidade e grandiosidade, aumentando e sensibilizando, de maneira extrema, os sentidos do espectador. Como é o caso da rara série de compilações BDSM filmadas nos anos 70, chamada Symphony of Rape, que faz uma bizarra contraposição entra a música erudita e as cenas de violência extrema.

 

Há também aqueles que reclamam da trivialidade dos filmes da Galápagos. As histórias, dizem os críticos fervorosos, são banais, caem no lugar comum. Mas isso é um ponto negativo? O sexo e a história, principalmente os da Boca do Lixo, são uma materialização fiel de todo o (in)consciente coletivo do povo brasileiro: suas taras, medos, frustrações e desejos mais oprimidos e repreendidos. Sady Baby que o diga...

 

Então, por que falar de epopéias e roteiros suntuosos, mirabolantes, quando nos anos 80 o que se via nos cinemas era o próprio reflexo da população brasileira, o povão pobre e semi-analfabeto, marginalizado das estruturas do poder? Na década de 80, o que se via era a representação popular nos cinemas, e não as putinhas plastificadas oriundas da classe-média, que encontraram nas produtoras Private/Brasileirinhas/Buttman uma saída para suas vidas sem significados. Aliás, estas três esplêndidas produtoras inundaram e emporcalharam as locadoras em meados dos anos 90, com produções voltadas para moleques espinhentos, adeptos do onanismo desenfreado. E acabou por enterrar de vez aquilo que já foi a mais brilhante expressão artística de um povo sem esperanças: a querida e saudosa Boca do Lixo.

 

A Boca do Lixo, como verídico cinema de classes populares, deveria (e fez) falar sobre temas que estavam pairando no próprio espírito do brasileiro, da classe menos favorecida: o corno, a prima do interior, a esposa mal-comida, o anão descarado, a mulher maluca, enfim. Temas capazes de fazer ressoar no público, única razão da existência de todo e qualquer filme. Afinal, o que é um filme senão um singelo prolongamento da vida?



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 16h53
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