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Necrofilmes: Obscuridades da 7º Arte


Como Afogar o Ganso (1984)

 

 

A pornografia à brasileira, muito antes desta fase “pós-cretina” que vem atravessando (onde predominam diretores sem genialidade e “atrizes” sem brilho), esteve sempre muito atrelada ao humor escrachado e farsesco enraizado no povo brasileiro. Quais seriam, então, as raízes deste humor debochado do Brasil? – perguntaria certamente o historiador Sergio Buarque de Holanda. A depender da resposta curta e grossa da Boca do Lixo, todo o comportamento do brasileiro teria como pano de fundo a sua picaretagem, o chamado “jeitinho brasileiro”. Afinal, nas lentes do cinema nacional – "cinema nacional" entendido aqui como a “representação popular nos cinemas”, ou seja, na Boca do Lixo – o Brasil é o país do trambique, onde abundam pilantras, descarados, vadios e irreverentes. Uma imagem, até certa forma, estereotipada, e que por isso mesmo elevou a níveis estratosféricos um humor insano e demente nunca antes visto.

 

Caipiras, negros, padres, advogados, virgens, galinhas (pessoas), galinhas (animais), balofas, portugueses, gays ou a quem quer que seja. Todos eram vitimas potenciais do humor ácido dos realizadores da famigerada Boca do Lixo. Ninguém escapava de suas escrotices. Nem mesmo um indefeso e dócil anão. A histeria cômica brasileira era diretamente convertida em película, materializando no cinema uma veia cômica sem interferências de limites, proibições ou moralismos. Piadas até certo ponto dantescas, que não encontram mais espaço no presente, dominado pelo cobertor cínico do politicamente correto.

 

Se o humor irreverente era um dos elementos mais intrínsecos à produção pornográfica brasileira – e, por isto mesmo, diferenciando-a de outros países e dando uma legitimidade nacional – pode-se afirmar, sem medo de errar, que o filme Como Afogar o Ganso é um dos mais representativos do clássico ciclo pornô da Boca do Lixo. Ciclo este que durou aproximadamente uma década, se iniciando 1981 com Coisas Eróticas, do italiano Rafaelle Rossi e, perdurando até o início da década de 90, com as derradeiras produções do veterano Carlos Nascimento e as obras terminais de Sady Baby.

 

 

Na obra Como Afogar o Ganso, o diretor Conrado Sanchez exibe, de forma quase documental, o dia-a-dia de Rodolfinho, um anti-herói bem brasileiro. Rodolfinho é certamente aquela pessoa que não foi parida, e sim cagada por alguma mulher: é feio, pobre e (pasmem!) virgem! Pois é, “ripa-na-chulipa” é uma expressão que não consta no vocabulário do nosso pobre herói. Pussy, só mesmo em sonhos, onde nosso Rodolfinho não pensa duas vezes: abre o zíper da calça, pensa naquela vizinha gostosa na flor da idade trajando roupas minúsculas e aí... Aí acho que você já sabe, né? Ou vocês são ingênuos e eu tenho que ficar escrevendo aqui detalhe por detalhe? Rodolfinho é o guardião daquele seleto grupo que pode ser chamado de “os Bronha-boys”.

 

 

 

Rodolfinho é a típica representação humana daquilo que o cientista social Howard Becker chamaria de outsider. Rodolfinho, lenhado que só ele, vive (ou vegeta) em um cortiço imundo, tendo que dividir a inóspita moradia com vizinhos rabugentos. Fazendo bicos aqui e acolá, Rodolfinho está nas margens das estruturas do poder. E para piorar a situação, namora, de forma tímida, uma mocinha insegura, que só vai liberar a “entrada” após o casamento – se é que vocês me entendem... Nota-se aqui um traço interessante do jeito de ser brasileiro. Afinal, na opinião de muitos, mulher que se preze tem que se “preservar” das tentações carnais. O hímen não é somente uma película presente na entrada da vagina, mas também um símbolo de como se opera a sociedade machista e patriarcal, que vê na virgindade da mulher uma proteção à futura família exemplar. A família entendida como a célula máter da sociedade monogâmica, conservadora e... Hã? Deixemos minhas análises sociológicas chinfrins de lado e voltemos ao Como Afogar o Ganso!

 

 

Conrado Sanchez, diretor paulistano de Como Afogar o Ganso – e que estreou na direção a convite do lendário produtor Antonio Pólo Galante com o clássico A Menina e o Estuprador – acertou em cheio ao narrar, com certa distância emocional, a história de Rodolfinho. Não há um tema central na história, uma diretriz a ser seguida. Apenas momentos corriqueiros de um menino pobre de São Paulo, e sua tentativa desesperada em perder, a qualquer custo, a virgindade.

 

Conrado Sanchez conduz o filme como se nós, espectadores, observássemos a vida de Rodolfinho pelo buraco de uma porta, tornando-nos cúmplices do destino amargo que espreita o cotidiano do pobre menino – sem que nós possamos fazer absolutamente nada, apensa ver e observar, torcendo para que o Rodolfinho agarre pelo menos alguma moçoila. Mas, para que isto ocorra, o morador do cortiço tem que fazer alguma coisa! Sei lá, tomar alguma atitude! Macho que é macho persegue sua fêmea! Porém Rodolfinho, quando tem a chance de ficar com uma mulher nuazinha dentro do quarto, vacila! Vacila e feio! Rodolfinho sempre nega fogo a uma dondoca. Sei não, acho que Rodolfinho gosta mesmo é de uma linguiça!

 

 

 

A atuação brilhante de Paulo Cesar, encarnando com maestria o personagem Rodolfinho, é um dos pontos mais marcantes de Como Afogar o Ganso. E mais do que isso, Paulo Cesar criou, com seus trejeitos, um dos personagens mais marcantes da história da Boca do Lixo. Um feito grandioso, visto que foram poucos os atores que conseguiram dar uma áurea de imortalidade aos seus personagens, transformando-os em verdadeiras lendas do cinema nacional. Os outros célebres atores que conseguiram tal façanha foram Chumbinho, interpretando com sobriedade o anão Siri no Fuk Fuk à Brasileira, e Rubens Prado, que imortalizou de forma competente os anti-heróis índio Kamoa e Gregório, o Lenhador, nos clássicos do splatter tupiniqum Experiências Sexuais de um Cavalo e Sexo Erótico na Ilha do Gavião, respectivamente.

 

 

Quem rouba também a cena é o ator John Doo. Dotado de um carisma ímpar, o chinês John Doo – conhecido pelo grande público como diretor talentoso, autor de episódios singulares de filmes como A Noite das Taras e Aqui, Tarados! – personifica o chefe raivoso de Rodolfinho, dono de uma loja que tem a nobre função de lavar roupa suja alheia.

 

 

Percorrer os olhos em Como Afogar o Ganso é uma aula nostálgica não somente de como se fazer um filme leve, engraçado e divertido, como também uma sóbria e interessante análise da diferença de épocas e de costumes dentro do próprio Brasil. De ver como este país mudou para pior. Marcar a diferença entre os anos 80 e os já escaldados dias atuais. Hodiernamente inexiste história, lógica e diversão, apenas uma pornografia asquerosa, adepta do “pró-punheteirismo”, onde as cenas desconexas são enfeitadas por donzelas plastificadas da classe-média, as manjadas sereias de sarjeta, que não estudaram e por isso mesmo ganham a vida entre um blowjob e um buttfucked. Um verdadeiro contraponto à Boca do Lixo, que contava, geralmente nos seus breves 70 minutos de projeção, histórias comuns de um povo pobre, e que por isto mesmo, eram cenas sinceras e gloriosas, flagrando todo um inusitado costume sexual do povo brasileiro que nunca mais será visto nas telas. “Nunca antes na história do Brasil um cinema foi tão sincero e criativo”... Diria certamente o... Quem diria mesmo essa frase? E para comprovar minha tese de que o Brasil mudou para pior, o último trabalho de Conrado Sanchez no cinema foi Cinderela Baiana, em 1998, que conta com a Carla Perez e Alexandre Pires no elenco (argh!)

  

 

E galera, agora gostaria de escrever aqui neste espaço duas observações.  O primeiro é agradecer ao colega Alisson Andrello por ter me entregue seu elogiado e lendário zine Apocaliptical Mass Murder. Em 20 páginas, Alisson traça um respeitável estudo sobre os temas serial killer e mass murder, fornecendo informações interessantes e valiosas para pessoas que, assim como eu, estuda o assunto há muitos anos.

 

 

A segunda informação que gostaria de dizer é informar que o acervo Necrofilmes foi atualizado com mais de 70 obras raras do cinema. E atendendo a pedido (que não são poucos) o blog Necrofilmes está fazendo uma grande promoção. Levando 5 ou mais filmes, o preço cai para R$ 12,00 cada DVD. Tenho dito!

 



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 00h34
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