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Necrofilmes: Obscuridades da 7º Arte


Venha Brincar Comigo (1986)

 

  

É muito comum, entre os pesquisadores da Boca do Lixo, a propagação de certas informações a respeito daquele reduto mágico da arte de fazer cinema. Entre umas leituras e outras, percebe-se a existência de uma certa lista, que encabeça o rol de diretores que foram obrigados a aderir, devido a fatores culturais e econômicos, à ascensão da pornografia explícita. O narcisista David Cardoso, por exemplo, utilizando-se do pseudônimo Roberto Fedegoso, dirigiu, em 1985, Viciado em C... Alfredo Sternheim, sem usar pretensos nomes artísticos, adentrou na era do explícito com Sexo em Grupo. Outro importante nome obrigado a “militar” na recente e promissora área da safadeza explícita tupiniquim foi Cláudio Cunha, competente diretor de sucessos de crítica com o drama O Gosto de Pecado (1980), que chegou a mostrar a putaria com o elogiável Oh! Rebuceteio. Além de nomes como Antonio Meliande e Juan Bajon, que não viram saída a não ser surfar na onda do pornô.

 

Contudo, um lendário nome da gloriosa Boca do Lixo fica embutido no esquecimento da memória nacional, quando se trata de diretores que saíram dos filmes ditos "normais" para o filão X-rated. Desprezam, quase todos, a figura mitológica do mineiro Mauri de Queiróz, o eterno Tony Vieira. Talvez pelo fato da nossa “crítica cinematográfica” brasileira considerar Tony Vieira um subdiretor, incapaz de conviver no panteão dos diretores nacionais. Uma mera abstração inútil, inculto, produtor e diretor de filmes de qualidade “duvidosa”, um ser indigno de constar na memória do cinema brasileiro.

 

Não é, pois, esse o entendimento do blog Necrofilmes e de sites como a Zingu, que relembra e respeita a memória deste que provavelmente foi o diretor que melhor soube levar o cinema de diversão às grandes massas. A partir de 1972, quando dirigiu o western Gringo, o Último Matador, o Brasil passaria a conhecer e conviver cotidianamente o cinema de massas de Tony Vieira. Um cinema sem grandes complexidades ou desenvolvimento técnico, é verdade. Com filmes dotados de orçamentos quase inexistes, e fazendo verdadeiros malabares na arte da direção – ele veio de um circo – Tony Vieira conseguiu conjugar um cinema que enfatizava não a "arte" em si – no seu conceito aristocrático, de difícil compreensão às multidões –, e sim levar alegria e entretenimento a um povo tão sofrido como é o brasileiro.

 

Em um período de 15 anos, Tony Vieira foi o responsável pela direção, produção e (quase sempre) atuação de aproximadamente 30 filmes. Um efeito grandioso, que mostrava sua fidelidade e obstinação à Sétima Arte. Corajoso e ousado, Tony Vieira destilava cargas de adrenalina em todos os gêneros possíveis, dirigindo e atuando em faroestes, policiais, suspenses, aventuras e dramas. A crítica nativa – como é comum em toda a sua história – no afã de jogar pedras a quem vem do povo (que não tem a predestinação divina de vir de família de banqueiros) o considerava um diretor horrível. Mas em certo momento, em uma análise ao filme Os Violentadores (1978), ela foi obrigada a confessar: “Pode ser que Os Violentadores não passe de uma imitação, mas podem crer, é um filme feito com sangue, suor e lágrimas de brasileiros”. Tony Vieira é a materialização mais fiel do que se pode chamar de cinema popular. A revista Cinema em Close Up – importante e extraordinário veículo de publicidade da Boca do Lixo, certa feita se referiu a Tony Vieira como aquele que “se especializou na realização de filmes nos quais a correria e o sopapo dão a idéia de uma nacionalíssima violência”.

 

Dotado de um senso empresarial incomum, Tony Vieira, nos anos 70, fundou a MQ Produções Cinematográficas. Como consta em uma matéria da época, a MQ “começou do nada, apenas tinha a inteligência do seu titular. Hoje possui equipamento próprio, três câmeras, travellings e moviola” (Cinema em Close Up nº 13)

 

E a partir de 1984, com Meninas de Programa, Tony Vieira inundou os cinemas com obras pornográficas, como Neurose Sexual, Venha Brincar Comigo, Eu Adora essa Cobra, entre outras que incorporaram, algumas com fidelidade, o jeitinho brasileiro de dirigir safadeza, recheado de cenas transgressoras, que ainda não eram muito comuns na época. Tony Vieira foi um dos pioneiros na arte de transgredir, de inovar o pornô com cenas bizarras e inusitadas, recheado de parafilias, homossexualidade e estupros, além de sexo interracial.

 

 

Em 1986, em plena invasão pornográfica norte-america no Brasil, que exibia nos cinemas as devassas atuações de estrelas do nível de Ginger Lynn e Traci Lords (apesar desta ser “di menó” na época), Tony Vieira e sua MQ Produções rodaram Venha Brincar Comigo, aproveitando, de forma explorativa, uma notícia que deu no que falar, na época: uma inglesa que se apaixonou pelo seu sequestrador; uma materialização factual daquilo que a psicologia chama de Síndrome de Estocolmo.

 

   

 

No filme em comento, a filha de um milionário (Fabiana Rios) é raptada por sequestradores adeptos da suruba e hedonismo, composto por três homens e uma mulher (Lia Soul, que anos mais tarde escandalizaria o Brasil e os Estados Unidos com Mulheres Taradas por Animais). Levada a uma distante casa de campo, a sequestrada nutrirá um paixão incontrolável por um dos seus seqüestradores (o ator Van Oliver), aquele encarregado de “cuidar” dela, enquanto os outros meliantes vão aos bacanais da vida – as cenas de orgias, nas quais impera o vale-tudo, foram filmadas na lendária Boate Biblo’s, de São Paulo, muito explorado pelos filmes da Boca do Lixo, assim como o Motel Bariloche.

 

 

 

A trilha musical, retirada do LP de Lilian Gonçalves, é um das mais irritantes possíveis, bem camp, ultrapassado e irritante. Um filme pornô, pela sua essência, se sustenta por um elenco que dê respaldo às multidões. Lamentavelmente não acontece com Venha Brincar Comigo. A atriz principal, Fiabana Rios, na época foi descrita como uma “nova musa do sexo explícito”. Mas verdade seja dita, Fabiana Rios não tem carisma nenhum. Nas cenas de sexo, parece mais um robô, sem expressões, sem saber ter desenvoltura com o corpo e inerte nas ações sexuais. Não é à toa que sua passagem foi meteórica na Boca do Lixo, contracenando em só mais um filme, também do Tony Vieira, em o desconhecido Garotas da Boca Quente.

 

Entretanto, no meio de um elenco sem apelo popular, eis que surge na linha do horizonte ele, o mais querido e charmoso ator brasileiro de todos os tempos, o saudoso e lendário anão Chumbinho. Como uma ave Fênix, Chumbinho ressurge das trevas para dar ao filme Venha Brincar Comigo apenas uma única cena realmente divertida e digna. Guiando seu cavalo na praia, Chumbinho, em um momento de distração, deixa seu animal amarrado em uma árvore. Acontece que no mesmo momento os sequestradores estavam lascando a lambisgóia nas areias da praia (se é que vocês me entendem). E um pacato senhor, ao ver atônito a cena de suruba ao ar livre, quer logo saciar seu prazer hedonista (“saciar seu prazer hedonista” leia-se bater punheta para gozar). Mas eis que o senhor de idade tem uma ideia melhor (Hã? “Melhor”?). O cidadão percebe que o cavalo de Chumbinho está ali, no meio do mato, dando sopa. Então: Créu!

 

Tenham calma! Tony Vieira não era Sady Baby nem Rubens Prado. Aqui, o bestialismo é apenas implícito. Mas imagina você, leitor. Você tem um cavalo que usa como meio de transporte. Em um momento de descuido, deixa o cavalo sozinho, amarrando o mesmo a um tronco de árvore. Quando se dá conta, tem um estranho “montado” (no mau sentido) no seu cavalo! Eu ia fazer o mesmo que o Chumbinho, jogar pedra no safado. Chumbinho não titubeia, pega várias pedras e joga no bizarro ser zoofílico. Até que o descarado sai correndo, fugindo das pedradas certeiras de Chumbinho. Essa é o único momento de criatividade de todo o filme.

 

 

 

Para azar dos puritanos, Venha Brincar Comigo é entrecortado por cenas bizarras. Na Boate Biblo’s, um dos sequestradores toca piano. Só que ao invés de usar os dedos, ele usa o Bráulio – se é que vocês me entendem. Sem contar nas excêntricas cenas de homoerotismo (ou, melhor dizendo, “viadagem” mesmo!) protagonizados por Agnaldo Costa, que chega a enfiar uma garrafa no próprio fiofó!

 

O elenco feminino de Venha Brincar Comigo é sem graça, não tem o tchan de uma Sandrinha Midori da vida, muito menos a ingenuidade sensual de uma Sandra Morelli, nem a desenvoltura e dinamismo de uma Eliane Gabarron. E Fabiana Rios, como dito anteriormente, é um robô frio e sem graça, que não consegue emprestar sensualidade a nenhuma cena. Ela é broxante! Deve-se deixar registrado aqui nos anais desta casa a última frase que Fabiana Rios recita para os espectadores, ao se deparar com seu sequestrador-amante, uma frase surpreendente: "Amor de pica é amor que fica". Uma declaração que certamente Gilmar Mendes e sua gangue qualificaria como algo "lítero-poético-recreativo".

 

O ponto fraco de Venha Brincar Comigo é a aparição veloz (e mal filmada) do astro Chumbinho – dublado com uma voz das mais grotescas, e por isso mesmo engraçadíssimo. Chumbinho, dotado de um talento sexual ímpar e comediante nato, astro do stand up comedy no pornô (ele, sozinho em cena, fazia cenas e trejeitos hilariantes, roubando todo o brilhantismo e diversão de qualquer filme) poderia ter sido melhor usado por Tony Vieira. Ao invés da sua aparição vapt-vupt.

 

As falhas do filme são evidentes. A criatividade sempre foi um elemento intrínseco à carreira de Tony Vieira. Porém, Venha Brincar Comigo é uma obra menor do mestre, sem o espírito debochado, marginal e alegre que tanto a Boca do Lixo proporcionou às classes populares – apesar de algumas cenas transgressoras. E a memória de Tony Vieira, para o nosso azar, quedou-se inerte no ostracismo do tempo.

 



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 20h31
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