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Necrofilmes: Obscuridades da 7º Arte


Banho de Língua (1985)

 

Vindo de uma cidade no meio do nada, na desconhecida Dores do Indaiá, em Minas Gerais, e se deslocando para São Paulo em busca de um sonho, Mauri de Queiróz encontrou no cinema um mundo onde pôde realizar todas as suas fantasias.

 

Sendo um ex-artista de circo e profundo conhecedor das emoções do povão humilde, Tony Vieira, pseudônimo de Mauri de Queiróz, investido na função de produtor, diretor e ator-galã de filmes de baixo orçamento (low budget film), construiu, para si e para o cinema do Brasil, um mundo repleto de seres fantasiosos, de tramas mirabolantes, entrecortadas por ações de quadrilhas malvadas. E, como mocinho, Tony Vieira teve a oportunidade rara de poder salvar moças lindas e de corpos esculpidos das garras dos perigosos bandidos.

 

Entre tiros e explosões, dirigiu automóveis para perseguir sádicos vilões, onde fazia, vez ou outra, a galeria do mal cair da ribanceira. Mauri de Queiróz, enfim, construiu, com muita dedicação e batalha, a lendária figura do herói sul-americano. Uma versão brasileira – e melhorada – do afeminado James Bond britânico. James Bond nunca sua o terno ou amassa a gravata borboleta. Dirige Aston Martin, recebe grana do Serviço Secreto e finge que come as mulheres só para não ficar com fama de bichinha. Tony Vieira não. Foi um verdadeiro cabra-macho. Roupa amassada e suja, suando feito burro, não tinha bons modos na mesa e era rude mesmo com tudo e com todos. Bebida, só mesmo a boa e velha cachaça. Comida? Nada de restaurante chique, só o feijãozinho básico mesmo e a farofa. Ele não tinha vergonha de ser um legítimo farofeiro! Quando pintava a bandidagem, resolvia as coisas ao seu modo, detonando vagabundos. Afinal, com relação aos bandidos, o capeta manda, Tony Vieira devolve. Dado a sua virulência e impiedosa energia que dispensou a todos os variados tipos de nefastos marginais, Tony Vieira foi um verdadeiro Charles Bronson. Daqueles que não se fazem mais hoje em dia.

 

Se nos anos 70 Mauri de Queiróz, com o pseudônimo de Tony Vieira, levava todo um universo fantasioso às multidões que lotavam os cinemas, repleto de seres grandiosos e histórias envolventes, a partir da década seguinte seus filmes passaram a fazer fronteira com a mais pura realidade. O herói que outrora ostentava uma pistola para salvar a mocinha em perigo, passaria a ser substituído por um sequestrador drogado adepto da suruba sem camisinha, e a bela virgem que nos tempos passados era salva no final da história, passaria a se transformar em uma coroa estuprada por uma gangue de marginais. A adesão de Tony Vieira à era pornográfica pôs um fim a toda uma magia que pairava nos seus filmes de ação; talvez um reflexo de seu sentimento de mágoa e frustração para com todas as transformações econômicas, culturais e degradações que a Boca do Lixo estava atravessando – transformações estas como a invasão de filmes explícitos estrangeiros, e sucessivas crises econômicas, que em poucos anos contribuiriam para sepultar definitivamente a lendária Boca do Lixo.

 

O cinema pornográfico de Tony Vieira é, acima de tudo, um cinema seco, áspero, árduo, que não comporta espaço para sonhos e fantasias. Piadas e situações cômicas, nem pensar. Caso Roberta Findlay, diretora do controverso e apelativo “filme” Snuff, ficasse responsável pela divulgação de toda a obra explícita de Tony Vieira, certamente ostentaria nos cartazes a crua declaração “The film that could only be made in Brazil, where life is cheap”.

 

A partir de Meninas de Programa, o primeiro filme da fase hardcore de Tony Vieira, o cinema do diretor mineiro – radicado na paulistana Boca do Lixo – perdeu a conceituação maniqueísta de vilões, mocinhos e vítimas. Não mais existiria o Bem e o Mal. Apenas o ser humano, criatura nefasta e sem os menores resquícios de civilização. A única lei que rege a todos e a tudo não é a álea preconizada milênios antes pelos filósofos gregos, e sim o caos, um mundo rude, onde as pessoas vegetam esperando o fim da vida. Impera aquilo que Paolo Cavara e Franco Prosperi definiram como Mondo Cane, um mundo cão, repleto de assassinatos, cultos satânicos, sacrifício de pessoas, estupros, sequestros e mortes. Homo homini lupus (“o homem é o lobo do homem”, para usar uma expressão em latim). Ingredientes indigestos encontrados em quase uma dezena de filmes adultos filmados por Tony Vieira entre 1984 e 1988. O cinema explícito da Boca do Lixo encontrou nos filmes de Tony Vieira o que foi convencionado nos Estados Unidos como roughie movie.

 

 

E é neste contesto agradável e limpinho que Banho de Língua se insere. Se em Meninas de Programa Tony Vieira contou a história de moças ingênuas que entraram no caminho da prostituição, em Banho de Língua narra a história de jovens vindas do interior que, não encontrando oportunidades na cidade grande, acabam sendo molestadas por homens que fingem querer empregá-las como domésticas. 

 

Rose (a atriz Ayda Guimarães) é uma moça sozinha na cidade grande, reduto de lobos sem dignidade que exploram uns aos outros. Desapossada do apartamento onde vivia, por inadimplemento das obrigações locatícias, acha-se no meio da rua. Sem casa e sem trabalho, pensa que encontrou uma oportunidade de emprego em um apartamento. Porém, descobre atônita que terá que satisfazer sexualmente seu futuro patrão. O que não concorda, porquanto ainda não foi corrompida pelo “modo de vida barato” dos grandes centros urbanos. Tony Vieira faz, desta forma, uma interessante contraposição entre dois diferentes tipos de mundo. Um é o interior, caracterizado pela dignidade da pessoa humana, habitado por pessoas ingênuas e de boa índole, e o outro é a metrópole, lugar que destrói a todos, onde os homens só pensam em molestar as mulheres, seviciá-las. Um local onde não se pode confiar no próximo.

 

 

Desamparada e sem perspectiva de futuro, Rose, por ironia do destino, acaba encontrando em uma pracinha uma dupla de duas jovens, que está na mesma situação difícil dela. Conversa vem, conversa vai, e uma das meninas joga a tolha: “É, eu acho que o jeito é abrir as pernas mesmo...”

 

 

Corta-se então para uma outra cena, em uma região um pouco distante. Três rapazes, filhinhos-de-papai, abusando de suas condições econômicas, abandonam uma mulher no meio do mato. O resultado final de mais um estupro. Mal sabe Rose, na flor da sua inocência mais pueril, que o destino lhe reserva tal desprazer.

 

Por crueza da vida, na sua incansável jornada de peregrinação em busca de um emprego, Rose acaba indo parar na casa do líder da gangue de estupradores de classe-média alta. Bebendo refrigerante que lhe fora oferecido, ministrado com drogas e soníferos, ela acaba por dormir. Desta forma, poderá ser abusada sem que possa oferecer o menor esboço de reação. Algo do tipo sleep assault...

 

 

O estupro (ou, como dizem os nossos vestibulandos, “o estrupo”), ato sexual que caracteriza-se pela violenta conjunção carnal imposta à mulher, mediante cópula vagínica forçada, é um ato de redenção. A partir de tal crime, Rose joga a toalha, e entra definitivamente no ringue da vida. Uma vez abusada sexualmente, rende-se ao mundo cão que reina na cidade grande. Passa a ser prostituir. E com isso, protagonizará mil e uma histórias cabulosas, entre cenas heterossexuais e transexuais, chegando até mesmo a colar velcro com outras dondocas. Se é que vocês me entendem... No cinema de Tony Vieira, a prostituição é, não um ato unilateral de vontade, e sim um determinismo socioeconômico da vida.

 

E são nessas experiências sexuais de prostituta vividas por Rose que Tony Vieira transmite aos olhos do espectador todos os mais variados tipos de aberrações sexuais. Não há, no cinema de Tony Vieira, uma fronteira entre o sexo convencional e o sexo normal, entre a legalidade e a proibição. Impera o vale-tudo, a vontade de sentir o prazer naquele exato momento, não importando os meios. Importa apenas o fim. Em uma das cenas, um homem enfia um espanador de pó no próprio furiquis – para dizer uma palavra na língua do Mussum.

 

Entre um dia de labuta e outra, Rose prepara seu encontro com o grupo de grãos-finos que outrora lhe abusou sexualmente. Os responsáveis pela degradação mundana a que fora submetida. Até que este dia chega. Disfarçada com óculos, vai á localidade onde os mesmos se encontram. Porém, o que era para ser um desfecho chocante e violento de uma legítima trama de rape and vengeance (estupro e vingança), torna-se um ato de submissão aos anseios depravados dos criminosos. Se vingar para que? Ela quer mais é curtir. E nisto, cai nos braços (ou , melhor dizendo, caiu nos Bráulios) novamente da quadrilha de bandidos riquinhos.

 

O ponto alto de Banho de Língua – e de toda a fase explícita de Tony Vieira – é o double penetration protagonizado por Ayda Guimarães, uma cena competentemente executada e muito bem filmada por Tony Vieira. Aliás, este tipo de “fornicação” – extremamente comum no cinema norte-americano nos anos 80 – era raríssimo na Boca do Lixo. Mais uma ousadia do Tony Vieira, um visionário na arte da pornografia e na inovação do sexo.

 

 

Banho de Língua é uma legítima obra de uma fase rude e sem esperanças de Tony Vieira. Um homem que, certamente, nasceu para alegrar o povo com seus filmes de aventura e ação. Como diretor de filmes para adultos, Tony Vieira era melhor que o James Bond.

 

 


 



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 15h47
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