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Necrofilmes: Obscuridades da 7º Arte


Chi! Cometa (1986)

 

 

 

 

O cinema, como qualquer outra arte, sempre buscou em acontecimentos reais uma fonte de inspiração. A década de 50, por exemplo, marcada pela Guerra Fria, com a eclosão da corrida armamentista e aeroespacial, fez surgir centenas de filmes de ficção científica que viam no espaço um perigo iminente. Em 1951, com o clássico The Day the Earth Stood Still, Robert Wise mostrou com suas preciosas lentes um alienígena que aterrissava na Terra para dar um ultimato: ou a humanidade encontrava a paz ou seria extinta.

 

 

E é nos mistérios do cosmo sideral que José Adalto Cardoso se espelhou para dirigir Chi! Cometa, uma legítima porno-comédia made in Boca do Lixo. O ano é 1985, e uma única notícia circulava em todos os meios de comunicação de todo o mundo. Afinal, não era todo o dia que o cometa Halley passava pelo planeta Terra.

 

Nascido no Paraná em 1946, José Adalto Cardoso encontrou em São Paulo o lugar certo para exercer o seu ofício. Trabalhando primeiramente como assistente de direção de lendas do cinema brasileiro, colaborando com Mazzaropi, Fauzi Mansur e Edward Freund, José Adalto Cardoso teve sua primeira grande oportunidade na direção em 1980, onde dirigiu O Império das Taras. E em um período de 7 anos, deixou como legado 14 obras, sendo quase todas elas pornográficas.

 

 

 

A Boca do Lixo sempre teve como principal elemento o sensacionalismo. E não só de nudez, sexo e violência se caracteriza um cinema sensacionalista. A exploração nos filmes sempre manteve uma relação direta com temas pertinentes da época. Por exemplo, nos anos 30 a temática em voga era o uso das drogas. E a velha marijuana era quase uma protagonista nas telas do cinema, para servir de alerta à geração de jovens “sacizeiros”, que gostava de dar umas tapinhas na pantera. Se é que vocês me entendem...

 

Entretanto, apesar da abordagem (e transbordagem) de tabus e temáticas chocantes, não somente assuntos polêmicos são tratados de forma sensacionalista pela sétima arte. Um mero fato científico, como a passagem de um cometa pela Terra, pode inspirar até mesmo um tresloucado cineasta da Rua Triumpho. E José Adalto Cardoso não foge à regra: por que não fazer um filme pornográfico nos rastros de um acontecimento verídico, a passagem do cometa Halley? O resultado, como não poderia deixar de ser, saiu risível. E Chi! Cometa foi parar nos cinemas dos centros urbanos.

 

 

A história é a mais vagabunda possível, superficial e quase inexistente, daquelas feito às pressas. Um homem de meia-idade, malandro nato, vive sua vida entre trambiques e malandragens. Pobre lascado, fica como nome sujo na praça. Além de dever a todo tipo de credor, não paga suas obrigações locatícias como inquilino. A proprietária do quarto vagabundo em que ele se hospeda, Samanta, frustrada com a sua constante inadimplência, dá um ultimato: ou paga, ou cai fora! Uma relação conflitante que remonta a seu Barriga infernizando a vida de seu Madruga – ou “Madruguinha”, conforme dizia docemente a Bruxa do 71... Quero dizer, a dona Clotilde...  

Se no México o papel do bom malandro foi muito bem representado por seu Madruga, em Chi! Cometa temos Chico, um pobre coitado que não tem onde cair morto. Se não tem casa onde morar, pelo menos tem uma namorada bem jeitosinha, Rose - a atriz Priscila Presley - a quem pede ajuda. Rose, uma deusa morena que somente uma mestiçagem brasileira poderia proporcionar, trabalha como empregada doméstica. E é na casa do seu patrão que ela vive. Como os chefes dela estão de viagem, Rose deixa Chico morar por lá, pelo menos durante esse período. 

 

E é justamente nesse período em que os patrões de Rose estão fora que Chico vai aprontar muita confusão – como diria certamente a propaganda da Sessão da Tarde, se tivesse a coragem de transmitir Chi! Cometa...  

 

Se a história é ridícula, sem o menor interesse, Chi! Cometa tem no elenco o ar de sua graça. Jorge Ventura, ator veterano do cinema brasileiro, encarna com competência o malandro Chico. Se o humor está na essência do ator Jorge Ventura, a sensualidade à brasileira encontra o seu par no corpo da mulata Priscila Presley, a doméstica de Chi! Cometa. Todo o talento artístico de Priscila Presley pode ser conferido em um ensaio fotográfico coletado por Betão no blog Pornografista. 

E onde entra o “cometa” do título Chi! Cometa? O título do filme é uma junção das palavras “Chico” e “cometa”, daí o “Chi! Cometa”. Se pensar um pouco, você pode perceber que o título pode ser também lido como “Chico meta” – passei a tarde toda pensando para chegar nesta conclusão. Tal jogo “criativo” de palavras, que só poderia ser feito por um linguista do nível de professor Pasquale, também é encontrado em outro título da Boca do Lixo, “A Mulher que se Disputa”, que, como poucas pessoas sabem, é um trocadilho com “A Mulher que se Diz Puta”... 

 

A passagem do cometa Halley foi inserida em Chi! Cometa da forma mais imbecil e simplória possível – mas, convenhamos, como fazer um pornô que tem como principal elemento de sua narrativa a passagem de um cometa?  

 

Como é da ciência de todos, Chico passa a morar junto com a namorada Rose, na casa dos patrões, enquanto os mesmo estão ausentes. E Chico, querendo lucrar um pouco, faz da casa um puteiro. Calma! Calma! Todos sabemos que o rufianismo é crime. Conforme a “dicção legal consagrada no texto normativo da Lei Penal pátria” (odeio essas frasezinhas cretinas de “adévogado”), em seu art. 230, é crime “tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus lucros”. Quem faz isso pode entrar em cana em até 6 anos. Mas tenha calma! Andar no baixo meretrício e se divertir com as sereias de sarjeta não é crime, apensas se você tirar proveito econômico disso. Portanto, você pode continuar à vontade com suas farras das madrugadas de sábado na Rua Augusta... 

 

E só uma curiosidade histórica (e inútil) sobre puteiros, que em nada vai agregar a sua bagagem cultural: “no fatídico dia 13 de abril de 1946, a desgraçada Lei Marthe Richard fechou os bordéis de toda a França. Uma tradição estava sendo quebrada, uma das mais velhas tradições da França, onde os bordéis foram tolerados pela lei desde um édito do século 13, em que o rei Luís IX (canonizado como São Luís) autorizava o funcionamento das ‘casas de cortesãs’ ” (esse texto retirei da revista adulta Vanity, que encontrei ao acaso, enquanto estava fazendo uma faxina nos fundos de minha casa, parar jogar um monte de porcaria fora). 

 

E Chico, nesse afã de fazer da casa do patrão da namorada um “templo do amor”, tem uma ideia para despistar os olhos da vizinhança. Afinal, como construir um puteiro sem chamar a atenção das pessoas e das autoridades? Chamando o Oscar Niemeyer e Lúcio Costa para fazer o planejamento? Não, a solução é mais simples do que se aparenta. Chico contrata carpinteiros e manda colocar na frente da casa cartazes com os dizeres “Damos aulas sobre cometa Halley”. E quando os estudiosos do assunto adentram na casa para aprender sobre o cometa Halley, descobrem que tudo é armação. O negócio ali dentro é safadeza mesmo! Falando em safadeza, olha o nível da "muiegada"! Só tem chupa-cabra! Vão ser feias assim na casa da desgraça! 

 

 

 

Essa foi a melhor solução que José Adalto Cardoso encontrou para unir o tema do cometa Halley a um filme pornô. O resultado é catastrófico. Chi! Cometa é fraco no enredo e no erotismo, um produto corriqueiro em que apenas a beleza (quase sempre vestida) da musa Priscila Presley sustenta do mais completo fiasco. Se falta um cast feminino interessante, há pelo menos algumas poucas e boas piadas. Em um determinado momento, Chico denomina os estudiosos do cometa Halley de “cometólogos”. Enfim, um humor ingênuo e "songo-mongo" que não encontra mais suporte nos dias de hoje. 

 

 

José Adalto Cardoso teve uma carreira irregular. Se em Chi! Cometa não conseguiu emprestar toda a sua criatividade e talento, um ano mais tarde, em 1987, se desculparia do erro grotesco, deixando ao Brasil um grande tesouro cinematográfico, a arrasadora obra-prima As Taras do Mini-Vampiro, um terrir pornô em que Chumbinho faz um vampiro em busca de sangue e safadeza. José Adalto Cardoso deve ser reconhecido por seus relevantes serviços prestados à nação, graças principalmente à parceria que efetivou ao lado de um gênio autodidata do cinema brasileiro, Sady Baby. Juntos, fizeram aquilo que certamente foi a mais louca e polêmica fase do pornô mundial. Mas isso vovô conta outra hora...  

 

E após terminar esta resenha, gostaria de mandar um abraço a todos os colegas do Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, um evento que foi magnífico e marcante, com filmes de alta qualidade, debates interessantes, encontros internacionais. Enfim, tudo de valioso que um cinéfilo (ou qualquer pessoa normal) pode esperar.



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 02h37
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