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Necrofilmes: Obscuridades da 7º Arte


A Gaiola da Morte (1992)

 

 

O ano era 1992. As coisas não estavam fáceis no Brasil. Uma sucessão de presidentes incompetentes e planos econômicos fracassados, aliado a uma contínua mudança comportamental do povo brasileiro, contribuiu para aniquilar o que restava do insepulto cinema brasileiro. A Boca do Lixo, que foi um terreno fértil de grandes nomes artísticos, estava capengando, indo em direção ao precipício. O reduto de produtoras e distribuidoras de São Paulo, que se sustentou durante anos graças à libido do brasileiro médio, não conseguiu suportar a avalanche do homevideo norte-americano. Estava indo definitivamente à falência.

 

Os ícones que até então encantavam o público estavam quase todos sumidos. Morreram de AIDS, foram para o teatro do sexo explícito, se converteram em religiões cristãs, se mudaram para outros estados ou países, foram tentar a sorte em outros tipos de trabalho, que pudesse “dignificar” o ser humano. E dentro deste contexto caótico, no qual o cinema brasileiro dava seus últimos suspiros, Waldir de Andrade Kopezky, cineasta da farsa explícita nacional, se uniu ao produtor Fauzi Mansur para tentar um dos últimos golpes da insepulto Boca do Lixo.

 

Nascido em 1938, Kopezki estreou na direção em Os Três Boiadeiros, ingênua aventura rural de 1979. E desta época para o explícito foi um só passo. Na fase da farsa erótica tupiniquim trabalhou com os maiores atores e atrizes da Boca do Lixo. De sua câmera flagrou gente de alto calibre como Tatiana Mogambo, Ronaldo Amaral e Márcia Ferro (Minha Égua Favorita, 1987) e Eliana Gabarron e Walter Gabarron (Devassa e Ordinária, 1988). No entanto, Waldir Kopezky ficará conhecido não por seus escassos (e medianos) filmes envolvendo erotismo e pornografia, e sim por ser o diretor do primeiro filme a abordar o chamado full contact do cinema brasileiro. Tal façanha Waldir Kopezky conseguiu com o obscuro A Gaiola da Morte, “o primeiro filme de artes-marciais”, conforme os dizeres do próprio cartaz.  

O tricampeão mundial de kickboxing Paulo Zorello, surfando no sucesso momentâneo que a luta lhe proporcionou, foi agraciado com um importante veículo de publicidade pessoal, a produção cinematográfica. A produtora Alfa Cinema e Vídeo, financiada por um importante nome da Boca do Lixo, Fauzi Mansur, lançou nos cinemas a excêntrica e curiosa obra A Gaiola da Morte, uma grande novidade na época. Afinal, não era todo dia que o público assistia a uma produção genuinamente nacional inteiramente focada em lutas e pancadaria sangrentas, bem ao estilo de Van Damme. 

Como toda uma geração de lutadores de artes marciais, Paulo Zorello iniciou-se em lutas motivado por uma grande lenda, Bruce Lee. Inicialmente treinou Kung Fu, mas logo trocou pela modalidade pela qual ganharia respeito e fama, o kickboxing. Durante toda a década de 90, fulgurou como o maior nome do kickboxing internacional, sendo suas lutas constantemente transmitidas na época pelo canal de televisão Bandeirantes.

 

Até então, o máximo de adrenalina em se tratando de artes marciais no cinema brasileiro era a engraçada e lendária comédia Kung Fu Contra as Bonecas, dirigido por Adriano Stuart em 1976. Stuart, conhecido por seus filmes dos Trapalhões, misturou, de forma leve a agradável, kung fu, karatê e capoeira, para narrar a hilária história de Kung Fu Contra as Bonecas: Chang, um mestiço, filho de chinês com pernambucana, parte para a vingança contra um cangaceiro que dizimou a sua família, sempre em companhia de Maria, exímia lutadora de capoeira. Ou seja, nada para se levar a sério... 

E é exatamente esta a grande curiosidade de A Gaiola da Morte: todo mundo leva a sério o filme! Ao contrário de Kung Fu Contra as Bonecas, na qual todos se deliciam e parecem tirar proveito com engraçada e inusitada história, em A Gaiola da Morte todo o elenco parece estar engajado em emprestar alguma (mínima) credibilidade à obra. Os atores, tanto Paulo Zorello como a equipe secundária, tentam se esforçar ao máximo nos chutes e voadoras, mas tudo descamba para uma grande comédia involuntária. Paulo Zorello é um espetáculo à parte. Com seu visual oitentista, no já tradicional e ultrapassado estilo camp, ostenta um orgulhoso mullet na cabeleira, esvoaçando entre uma voadora e outra, além de exibir um bigodinho frondoso e rigorosamente penteado, certamente influenciado pelo Professor Girafalles ou José Sarney.

 

 

 

A história de A Gaiola da Morte é simples, para não dizer simplória. Lutadores de artes marciais são sequestrados e obrigados a se enfrentar até a morte em um tornei onde só um sobreviverá. A competição mortal ocorre dentro de uma gaiola feita de bambus, escondida em uma fazenda longe da cidade. Os bandidos-sequestradores responsáveis por tamanha barbárie são criminosos que passam o filme todo de terno e gravata, sendo que um deles é personificado pelo conhecido ator-diretor Custódio Gomes, que passa a maior parte do filme calado. Vai ver por tristeza de não mais estrelar produções pornôs. Afinal, os tempos eram outros. O público só queria saber das siliconadas norte-americanas louras, via homevideo, em um espaço condizente com o conforto e a privacidade do lar que os anos 90 começaram a propiciar... Já não mais havia espaço para a fauna urbana que até a década anterior era refletida nas telas do cinema, que saciou até a exaustão a libido das classes urbanas.  

Custódio Gomes comporta-se de uma maneira um pouco nefelibata, um tanto quanto perdido, “nas nuvens”. Queria ele estar vendo uma Eliane Gabarron nua, com seu jeitão suburbana e o corpinho cheirando a sexo, e não um Paulo Zorello exibindo seu corpo em meio a lutas mambembes. O mesmo Custódio Gomes que na golden age da Boca do Lixo dirigiu o clássico Alucinações Sexuais de um Macaco, agora estava ali, parado, sem saber o que fazer ou sem saber o que falar, fazendo parte de uma quadrilha de sequestradores de terno-e-gravata-com-jeito-de-durão. Não era para ele... Afinal, sentiu-se estranho com os novos tempos, meio deslocado de seu habitat natural, a putaria explícita cafajeste made in Boca do Lixo. Custódio Gomes não nasceu para interpretar um mafioso de terno. É de se espantar o desconforto de Custódio Gomes em todas as cenas que aparece no A Gaiola da Morte.

 

 

 

Entre uma luta e outra, de nível de sarjeta, que não surte efeito ao espectador, salta aos olhos a surpreendente cena em que Mestre Maurício desvia de vários tiros de revólver perpetrados por seu malfeitor, utilizando-se da sutil arte da capoeira. Pergunto eu com os meus botões: será que João Tikhomiroff se inspirou nesta cena para fazer o seu recente Besouro? 

Apesar da falta de recursos, a “gaiola” que dá título ao filme, local onde as sangrentas lutas ocorrem, poderia ter sido feita de forma mais profissional, e não um amontoado de bambus que parece ter sido “arrumado” por crianças débil-mentais. A Gaiola da Morte é sim uma produção extremamente precária, porém foi louvável a iniciativa da parceira entre o produtor Fauzi Mansur e o diretor Waldir Kopezky. Eles ousaram. Viram que na década de 90 o filão explícito do cinema fora roubado pelos videotapes norte-americanos, e partiram para uma nova iniciativa, até então inédita no cinema brasileiro, o recém-criado gênero full contact. É verdade que o resultado não foi o esperado. E é verdade também que não fez escola. Provavelmente seja o único filme inteiramente de artes-marciais rodado no Brasil. A falta de carisma de Paulo Zorello e as coreografias amadoras das cenas de lutas viabilizaram o total fracasso da obra. Mas é de tentativas e erros que trilhamos os nossos caminhos.



Escrito por Yúri Koch yurikoch@hotmail.com às 19h14
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